O Mar das Vaidades Perdidas

Por quinta-feira, junho 27, 2013 0 , , , , Permalink
[box type=”info” size=”medium”]Texto publicado em: 1 de março de 2012 [/box]

A paisagem era predominantemente azul no oceano. O barco era apenas um minúsculo ponto negro, quase invisível, perdido no  azul sem fim. O jovem casal remava sem vontade, sem destino na verdade. Além do barulho rítmico da água contra o esquife, apenas o silêncio absoluto. A imensidão azul era inexplicável.  Não havia destino, nem expectativas. Remavam apenas porque era a única coisa a ser feita. A luz do sol era intensa, porém não queimava a pele. Os ventos bagunçavam os cabelos, mas não refrescavam o corpo.

Quando os remos golpeavam a água, respingavam gotas que na verdade não molhavam. Não havia explicação para aquele lugar, mas era tudo o que ela desejou um dia, um mundo onde não havia um mundo entre eles. Ela o percebeu com os olhos fixos nela, vislumbrando-a, mais linda do que nunca. O rosto belo do jovem, entre os cabelos sedosos e negros, sorria para ela, e ela sorria de volta com um sorriso franco e terno.   A jovem e bela moça respirou fundo. O ar não tinha odor algum. Também não era quente nem frio. Que lugar era aquele afinal? Ela não lembrava de iniciar aquela viagem, nem há quanto tempo estavam navegando no infinito. Mas sentia uma paz profunda, como se eles estivessem finalmente livres de algo terrível, talvez uma guerra ou algo semelhante. Havia uma alegria inédita no espírito da jovem, por estar ali a sós com ele, e ele parecia transparecer o mesmo sentimento. Talvez estivessem em um sonho, um lindo e romântico sonho de verão, ou talvez aquilo fosse o início de uma misteriosa jornada sobrenatural. Nenhum dos dois sabia como ou por quê… Não sabiam explicar onde, no espaço e no tempo, suas vidas estavam acontecendo. Mas compartilhavam o mesmo sentimento de que nada daquilo tinha muita importância. A única coisa realmente importante era o fato de que finalmente estavam juntos, e apenas juntos, misteriosa e indefinidamente.

Não havia norte, e não havia sul. Não havia ilhas ou continentes que pudessem ser alcançados. Apenas o barco, os remos e a  imensidão embaixo de um céu com um sol intenso. Havia um agradável sentimento de leveza, um alívio, sinalizando que o amor entre eles estava a salvo, e apenas aquele sentimento era o suficiente para que sorrissem e remassem, e se sentissem bem e em paz consigo mesmos e com a vida, ainda que ali não houvesse realmente uma vida. Era como um devaneio. Ao vislumbrar os belos olhos do rapaz, olhos vívidos e fixados nela, a alegria transbordou-lhe o coração, e ela inclinou-se de forma brusca e repentina para beijá-lo. O barco  inclinou-se demais, mas logo retornou ao eixo de equilíbrio com uma certa violência. O espanto interrompeu o namoro antes dos lábios se tocarem, e em seguida gargalharam, e se entreolharam novamente, desta vez mais próximos um do outro, prontos para o esperado beijo, que não aconteceu. Uma enorme onda formou-se no horizonte, um paredão de água assustador.

A jovem arregalou os olhos, retomou os remos e começou a remar com força. Ele empalideceu quando viu o muro gigante e implacável. A jovem não temia pela própria vida, seu único desejo era a salvação do seu querido namorado, e então ela remou com uma força descomunal, mas o barco pouco se movia. Ela remava com desespero, mas o barco parecia estar preso a uma âncora, enquanto a onda se aproximava, cada vez maior e mais assustadora. Quando a onda alcançou o barco, ela não sentiu o impacto. Apenas a sensação de estar deitada sobre uma pedra fria. Lentamente, ela abriu os olhos. Estava sob a luz de velas e o teto era parecido com o teto de uma cripta. Aos poucos, a sensação táctil revitalizou-se e seu corpo acordou. O devaneio dissipou-se, e sua mente, de súbito, recobrou as lembranças.  O coração da jovem disparou em alegria, e sua alma tornou-se ansiosa para retomar a vida que fora interrompida de forma proposital e temporária, como parte do plano para escapar de um destino injusto, e retornar para os braços de seu amado, o amor inaceitável para as duas famílias rivais.
O plano do querido Frei, o eterno amigo e missionário da reconciliação, parecia haver logrado êxito, e a jovem agora lembrava que estava olhando para o teto da cripta da sua família. Com um pequeno esforço, ela arqueou o seu corpo e encheu seus pulmões de ar, mas apenas para transformar a alegria em uma tristeza fatal. Sua alma gêmea, seu amor proibido, jazia estendido aos seus pés, com um frasco de veneno vazio, caído ao lado do seu corpo gelado e inerte. Mas o que teria acontecido? Ela não tentou entender, já não se importou mais. Naquele momento mais pesado do que  o céu, a dor do punhal contra a sua carne era apenas um bálsamo para a dor que inflava em seu coração. Ao perder os sentidos, seu espírito se aventurava no oceano misterioso outra vez. Ela sentiu o impacto da onda que revirou o barco. A jovem  mergulhou em busca do seu amado, esperando obter o derradeiro beijo, enquanto o azul infinito transformou-se gradativamente no negro que contém o nada. Ela nunca mais retornou à superfície. Dizem que o oceano sem fim, que habita em algum lugar entre este mundo e a eternidade, foi criado pelos anjos. Conta-se que, antes da fundação do mundo, em uma dimensão onde os calendários perdem o sentido, eles recolheram cada lágrima derramada pelas famílias rivais,  lágrimas que se uniram no altar do luto, em um casamento puro, cristalino e eterno.  Conheço uma órfã que conversa com os anjos, ela diz que eles o batizaram de O Mar das Vaidades Perdidas
Imagem: niqshi

No Comments Yet.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado