O Convidado

Era noite, isso basta. Não… não basta. Era noite de primavera. Pronto. Isso sim está bom.

O ar condicionado do carro estava desligado. Mas não porque eu queria economizar ou algo assim. Dinheiro nunca foi o mais importante na minha vida. Talvez pelo fato de nunca tenha passado dificuldades na vida, ou quem sabe porque a herança que meus pais me deixaram quando morreram naquele acidente não me deixam saber como é precisar poupar para ter.

A fumaça começava a sair pela janela aberta, na mesma velocidade que eu colocava minha cabeça pra fora e soltava, meio desnorteado, um estranho ‘UHUL!’.

Apago o cigarro e minha visão torna-se turva. Os efeitos daquilo começavam a ser sentidos dentro da minha cabeça. Sentindo que ia desmaiar, encosto o carro na beira da estrada.

Após algum tempo percebo que bem ao meu lado ergue-se uma morada de pedras e por sorte a luz estava acesa.

Saindo meio cambaleante, entro pela porta e toco o sino da recepção do local.

Sou bem recepcionado por uma linda e jovem atendente, que logo percebe meu estado e, pedindo meu cartão de crédito, logo me leva pelo corredor até o meu quarto. Nas paredes percebo vários recortes dos jornais onde aparecia esse lugar onde eu estava, mas minha sanidade não me deixa perceber muito bem o que dizem.

Então ao chegar no quarto, capoto sem ver direito nem se a cama estava arrumada.

Algum tempo depois eu acordo, com muitas vozes no jardim. Ainda é noite e como minha cabeça não está mais girando decido me levantar e conversar com os outros hóspedes.

Chego lá e a atendente me dá boas vindas, junto com os outros hóspedes, os quais ela chama de amigos. Então anda até o aparelho de som e liga uma música parecida com uma rumba, muito alta e contagiante. No mesmo instante todos começamos a dançar e os copos com o ponche começam a se esvaziar. As risadas se sobressaem à musica, e o clima é de alegria total. Talvez seja um dos lugares mais animados que eu já vi.

Então enjoado daquele ponche de frutas com vodka, chamo um dos hóspedes e pergunto a ele onde posso encontrar um saboroso vinho.

Surpreso, ele me olha de cima a baixo, me puxa para perto de si e sussurra no meu ouvido: “Já faz anos que não há vinho aqui”

Quando o som de sua voz entra nos meus tímpanos, um choque de realidade toma conta de mim, e eu abro os olhos subitamente e me encontro deitado em um quarto, com as mesmas pessoas de antes, porém nenhuma delas percebe que estou ali.
Olhando para o teto percebo meu semblante assustado no reflexo, e é a única coisa que consigo ver.

Me levanto, agora lúcido, mas ainda vejo todas as pessoas em volta de mim, mas eles não estão sorrindo. Todos estão chorando. Vejo as lágrimas correrem em cada face. Dou um grito de temor, e todos se viram pra mim.

Um deles vem a mim e se ajoelha na minha frente, chorando, dizendo que estão todos aqui para sempre, prisioneiros.

Então um som alto começa a se aproximar. Em passos pesados uma criatura se aproxima, causando o pânico no olhar de cada um ali.

Então ele aparece, atravessando uma parede de concreto do quarto, derrubando metade das pessoas ali dentro. Seus dois metros e meio de pele vermelha causam uma paralisia mental em todos. Em um pavor impossível de ser contido, tento correr, saindo do quarto, batendo a porta e descendo as escadas, com a imagem da besta ainda gravada na minha retina.

Chegando à porta de saída, uma velha senhora estava lá sentada. Percebo então que foi a mesma pessoa que me recepcionou. Calmamente ela se levanta, pega em minha mão e me conduz novamente ao quarto, dizendo em palavras doces e sinceras: Acalme-se meu amigo. Não importa o quanto corra, o quanto procure uma maneira de sair, o quanto se desespere. Agora você é para sempre nosso convidado…

6 Comments
  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    agosto 16, 2013

    Heh, irado! Se for um conto cheio de simbolismo, acho que terei de ler mais algumas vezes para desvendar os detalhes. Se não for, mesmo assim a história ficou bem legal.

    Uma sugestão de ordem formal: a frase em que o personagem menciona a herança e o acidente dos pais talvez pudesse ser reescrita para evitar a repetição do verbo “deixar”.

    Tem continuação?

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    agosto 16, 2013

    Ah, pera, acabei de notar que é pra coletânea SOMos. Nesse caso, seria bom postar o nome da música que inspirou o conto.

  • Rainier Morilla
    agosto 26, 2013

    Welcome to the hoteeeeeeeel california! Sucha lovely place… Sucha lovely face…
    A última frase denuncia isto! XD

  • Rainier Morilla
    agosto 26, 2013

    Deja vu? Acho que já vi essa em algum lugar… Inclusive me lembra de algum livro que deveria ganhar, não sei pq? rsrsrs…

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    agosto 31, 2013

    Arrá!
    Po, conhecia a música, mas nunca tinha me ligado na letra.
    Agora sim posso dizer que curti. Ainda não tenho certeza se os eventos narrados são literais (reais) ou surreais, mas não importa: foi essa dúvida que me agradou.

  • Juliano Rossin
    setembro 29, 2013

    Achei o texto interessante, mas ficou faltando algo que instigue mas o leitor. Exemplo é essa cena onde aparecer a tal criatura, ela simplesmente aparece e causa caos, mas fiquei me perguntando porquê? E como não poderia deixar de faltar num comentário meu… olha o tempo verbal, tá bem bagunçado.

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