Abre a roda

O sorriso claro no escuro, apenas iluminado pela tela do laptop. Ele estava caçando na internet. Não corpos para sexo, já tinha uma namorada linda e era fiel a ela, caçava músicas. Algo especial e que completasse a ideia de seu site. Algo que fizesse a diferença, chamasse atenção e tivesse relação com a roda. Era obcecado pela roda.

Não demorou muito e achou uma cantora dos anos oitenta que cantava aquilo que ele chamava de a música perfeita. Uma vez atrás da outra ele escutou a faixa sem parar. Utilizou a canção várias vezes no site e ria da opinião dos outros. A letra grudenta não foi difícil de decorar e a melodia ressoava em sua mente mesmo depois de ele estar debaixo das cobertas no meio de seu quarto escuro. Dormia quase sempre a cantarolando.

Foi em um dia qualquer, sem nada de especial, que todo este caso começou.

Ele seguia normalmente com sua vida, trabalho e nerdice até quando voltou para casa tarde da noite. Cansado, tirou os sapatos para refrescar os pés no frio do piso. Ligou o laptop e foi à cozinha pegar um copo de seu leite desnatado preferido, o leite de cabra. E de lá escutou uma melodia começar a tocar. Coisa estranha pois apenas tinha apertado o botão de ligar, ainda precisaria colocar a senha para então poder abrir qualquer programa que tocasse música.

Então de sua mão o copo, ainda cheio, caiu espatifando o vidro e espalhando o leite. Os olhos vibraram e seu azul cobalto brilhou e se tornou água marinha. Os cabelos começaram a clarear. De preto se tornaram mel e de mel se tornaram loiros, apenas um pouco mais volumosos e cheios do que já eram. Por debaixo da camisa seios cresceram enquanto no vão entre as pernas algo sumiu. E junto da música que tocava no laptop ele, agora tornado mulher, girava em volta do corpo enquanto cantava:

- Vamos abrir a roda, enlarguecer…

Dançou e girou por toda a extensão do apartamento enquanto cantava e ignorava as batidas de pedido de silêncio dos vizinhos. Mas daquela noite não teve lembranças.

De manhã foi acordado pelo despertador, mas não queria se levantar. Sentia o corpo pesado e cansado, de ressaca, e os pés latejavam em brasa. Quando puxou-os para cima notou que estavam inchados, as solas negras e cheias de cortes. Sangue pintava a parte do lençol onde ficavam os pés.

- Mas que porra é essa? – indagou Rainier, espantado e ignorante do que estava acontecendo.

Ligou para o trabalho dizendo que não estava se sentindo bem e que não iria trabalhar naquele dia. Mandou uma mensagem para a namorada que logo passou para ver como ele estava.

- E você não se lembra de nada do que aconteceu? – perguntou ela sentada ao lado dele na cama. Os dedos entremeados nos cabelos do namorado fazendo-lhe um chamego.

- Absolutamente nada. A última coisa foi que eu cheguei em casa e peguei um copo de leite.

- O leite não estava vencido?

- Na verdade não tomei o leite. Hoje cedo encontrei uma bagunça no chão da cozinha, tudo espalhado e pisoteado. Provavelmente pisei várias vezes sobre os cacos. Fiz um curativo mas acho que vou precisar visitar um médico.

- Estranho. – completou ela enquanto ia em direção a janela. – Que tal a gente abrir a …

- A roda, enlarguecer! – cantou Rainier e depois calou.

A morena se virou para trás e o olhou com um belo sorriso.

- O que foi isso, bebê? – perguntou ela.

- O que foi o quê?

- Eu ia dizendo que era melhor abrir a …

- A roda, enlarguecer!

Ela se espantou. Dessa vez estava olhando para ele quando ele completou a frase que ela havia começado. E algo em seu rosto não era o mesmo que ela conhecia. Em questão de segundos a boca havia se modificado e voltado ao normal depois de ter cuspido aquela frase. A namorada já não sorria mais. Franziu as sobrancelhas em interrogativa.

- Você está zombando de mim?

- O que eu fiz, bebê?

- Não se faça de bobo. Você sabe o que fez. Eu estou deixando de estudar para vir ver como você está e você fica aí cantando aquela música boba que anda usando no seu site.

Rainier era um ponto de interrogação sobre a cama, e percebendo isso ela ficou preocupada com o que estava acontecendo ali.

- Posso usar o seu laptop um instante? – pediu ela.

- Claro, bebê, mas me explique o que houve? O que foi que eu fiz? Por que está me olhando dessa forma estranha?

- Já te mostro. Vou filmar você, assim você mesmo poderá ver.

Depois de ter apertado o botão de ligar o sistema foi iniciando direto e a música começou a tocar.

- Acho que é essa a música. Você ficou tão doente por ela que até mesmo colocou ela como fundo para a inicialização?

Não obtendo resposta ela se voltou para trás e viu Rainier encolhido, abraçando as pernas em forma fetal.

- Rainier, você está bem? – ela perguntou aproximando-se dele enquanto o instrumental daquela música enchia o quarto. – Rainier…

- Eu não sou Rainier, sua louca! – exasperou ele, já não sendo mais ele. Quase acertando um tapa na morena de tão rápido que foi seu movimento para afasta-la. Pisou no chão e começou a rodar e a cantar junto da melodia. – Vamos abrir a roda, enlarguecer…

A transformação havia sido completa. O Rainier que ela havia conhecido não estava mais ali. Aquela era uma outra pessoa. De pele morena e olhos claros, os cabelos loiros sendo jogados de um lado para o outro. Juntava as mãos em arco em frente ao corpo e coreografando a música enlarguecia o círculo abrindo os braços.

- Rainier, este não é você. Lute, meu bebê! Volta para mim. Eu sei que você é mais forte que isso!

- Cala a boca, sua vadia. Já falei que não sou esse tal aí – a música entrou em repetição. – Avise à todos, este corpo agora é de Sarajane. Porque Sarajane é luxo. Sarajane é glamour. Sarajane é poder.

Sarajane se encaminhou para a porta. A morena, em um ato desesperado, ainda tentou impedir que ela saísse segurando-lhe o braço.

- Tira suas patas de cima de mim, sua pulga – e se desvencilhou da morena que começou a rodar conforme a música.

- Ei, faça-me parar com isso! Que merda é essa? – vociferou a morena que não conseguia mais parar de dançar e rodar.

- Como eu disse, Sarajane é poder. O mundo todo vai dançar ao som e com Sarajane. Canta comigo: Vamos abrir a roda, enlarguecer… –  e ela saiu pela porta deixando a morena rodando incontrolavelmente ali dentro do quarto.

Depois de um tempo ela conseguiu se controlar, mas sentiu todos os efeitos pelo tempo que estivera dançando. O espírito de Sarajane havia se apossado de seu amor, o que faria ela? Sentia-se cansada e com as pernas fracas, porém sabia que não tinha tempo para descansar.

A cidade havia se tornado um caos. Onde não havia pessoas caídas, desmaiadas, havia pessoas dançando e rodando, e também chorando e implorando para lhes ajudar. A morena não tinha tempo nem habilidade para cuidar dessas pessoas. A única coisa em que pensava era em seu namorado, em como o encontraria e como o traria de volta. E a pista que seguia era a de corpos rodopiantes que encontrava.

Sarajane é mais do que apenas luxo, glamour e poder. Sarajane é também caos, foi o que ela pensou ao ver tantas pessoas afetadas caídas pelas largas ruas. Sentiu medo pelo que poderia encontrar, e não queria imaginar como aquilo poderia acabar.

Havia pegadas de sangue que iam da calçada para a rua e da rua para a calçada. A morena estremeceu ao ver que as pessoas apontavam para a direção que os passos seguiam. Era para lá que aquela mulher havia levado o homem de sua vida.

Não demorou muito para avistar Sarajane. Ela estava no meio de um grande círculo feito por inúmeras pessoas de mãos dadas. Todas infectadas, dançando e cantando a maldição que era aquela música. Elas abriam e fechavam a roda humana.

- Agora este corpo será para todo o sempre meu – gritava a entidade que girava em torno de si mesma. Sarajane ria com o rosto voltado para o sol que ardia infatigavelmente sobre a cabeça de todos. Sentia-se vitoriosa. – Espíritos do mal, eu os invoco e lhes ordeno, transformem esse corpo decadente em Sarajane, a divina e eterna! – e o corpo se elevou e começou a brilhar intermitentemente.

- Rainier… – chamou a morena, mas não podia ser ouvida pois a cantoria era alta. Ela tentava se aproximar o máximo do seu amor, mas o círculo de pessoas a mantinha afastada dele. O mais perto que chegava era quando a roda se fechava, e mesmo assim era por pouco tempo.

Desesperada, ela gritou, e som de sua voz naquele instante foi mais alto que toda a cantoria que soava. Sarajane iluminada olhou para ela e abriu um sorriso de escárnio.

Depois, o que se ouviu foi um estouro e todos olharam para o prédio ao lado, de onde havia vindo o som. Um senhor de cabelos brancos espatifados e uma camiseta regata amarelada estava na janela com uma espingarda apontada para eles.

- Eu avisei esses malditos moleques, que se não parecem com o barulho eu é que ia fazer barulho. Tá gostoso o chumbo aí, cambada de desocupado? – ouviram a voz rouca do velho dizer.

- Abre a roda! Abre a roda! – alarmou a morena empurrando as pessoas e correndo para o centro do amontoado.

Lá no meio, caído como um boneco sem vida, estava o corpo da mulher que ia enegrecendo. A morena se aproximou e chamou o nome de seu amado, mas não obteve resposta. Ousando, ela tocou o braço dele que estava por cima. Então, a partir de onde ela tocou, a pele começou a clarear e a revelar a forma original de Rainier.

Ela se sentou no chão e colocou a cabeça dele sobre o colo e só naquele momento ela percebeu o vermelho que lhe manchava a camiseta.

Havia um rombo no meio do peito de seu amado, onde a bala atirada por aquele senhor havia buscado refúgio. Lágrimas e um choro silencioso seguiram a constatação do fato. De que os olhos azuis de Rainier, que refletiam o azul claro daquele dia, não mais a veriam.

E as pessoas ao redor, mesmo vendo a dor da garota, ignoraram o fato. Pois havia sido ele, que sendo possuído, lhes fizera dançar forçadamente a níveis dolorosos. Melhor mesmo que morresse e levasse consigo a maldição daquela roda, pensavam eles. Entretanto, todos tremeram e se preocuparam quando junto de uma rajada de vento ouviram mais uma vez a voz estridente de antes dizer:

- Sarajane voltará! – E a frase foi seguida de uma gargalhada que foi sumindo conforme o vento levava.

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Pra quem não conhece, a música e cantora e personagem dessa história existem. Aqui vai o clipe: http://www.youtube.com/watch?v=iCE85qCQ9xE

10 Comments
  • Juliano Rossin
    dezembro 11, 2013

    Rainier, essa é pra você.

  • Juliano Rossin
    dezembro 11, 2013

    Era pra ser algo cômico, mas eu não sei escrever coisas assim. Então foi feito com sangue mesmo hahahahahah…

  • Rainier Morilla
    dezembro 11, 2013

    OMG! OMG! OMG!
    Li umas pequenas partes. =P
    Lerei tudo assim que chegar em casa!

  • Filipe Sena
    dezembro 11, 2013

    Deu pra sentir como a trilha sonora dos podcasts da Roda te traumatizaram, Juliano. O texto dá uma mudada meio brusca no ultimo terço, mas tá bem engraçado. Meio piada interna, mas bem engraçado

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    dezembro 11, 2013

    Huahuahuahuahuhauhauahauauhauahauhauhauhau! Sem mais.

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    dezembro 11, 2013

    E ouvir a música durante a leitura deixa tudo mais engraçado.

    Pois é, como o Filipe apontou, quando Sarajane sai pra tocar o terror na cidade o clima fica mais sombrio, mas toda a situação é tão surreal/absurda que o humor não se perde. Ficou muito bom.

  • Juliano Rossin
    dezembro 12, 2013

    Isso é só um aviso para o Rainier do que pode acontecer com ele se ele continuar a ouvir tal música infernal. Ele vai ser possuído e odiado… ahhaah…

    vallew pelo comentário

  • Juliano Rossin
    dezembro 12, 2013

    pois é, acho que até vou montar outro texto com o título “1001 formas de matar o Rainier”, só pra tentar limpar da minha mente essa música que ele cisma em deixar rodando nos podcasts… ahahaha

  • Carmem Albuquerque
    dezembro 12, 2013

    hahahahah até quando você é cômico tem um lado sombrio e horripilante!

  • Juliano Rossin
    fevereiro 23, 2014

    o sombrio e sanguinário nunca me deixará hahaha

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