A corrida

Ele corria com o espírito leve. Os pés martelavam o percurso de terra batida, a poeira arranhava os olhos, o suor incomodava, escorrendo pegajoso pelo rosto e salgado nos lábios. A brisa era inútil, ante o sol que punha seus ombros e pescoço a arder. Tinha uma vaga consciência do coração disparado, pulsando numa frequência absurda, talvez tão acelerado quanto o ritmo de suas pernas compridas. O tropel de seus passos sufocava as batidas cardíacas, o som da respiração, o zumbido do ar que ele cortava. Mas ele não se mostrava sufocado. Vencia a distância com facilidade, e ninguém o alcançaria.

Tinha liquidado os dois competidores mais velozes ainda no começo da corrida: duas rasteiras brutais quando já estavam em movimento, o que os tinha feito rolar por um bom pedaço de chão. Ou era o que especulava, a partir do estrondo que tinha ouvido. Não tinha se virado para confirmar. Seguiria fielmente o conselho do treinador: tomar a dianteira e focar a vista à frente. A visão periférica e os demais sentidos deviam bastar para perceber a aproximação de um adversário, pois os olhos permaneceriam cravados adiante, à linha de chegada ainda longínqua. À vitória.

Não se surpreendeu quando enfim reparou numa sombra que se mesclava à sua, e em passos que faziam eco aos seus. Logo atrás, bem perto. Fechou as pestanas. Quase podia sentir o vácuo que o deslocamento do outro criava a suas costas. Era preciso reduzir minimamente a velocidade, aguardar pela ocasião perfeita, o quase emparelhamento. Umedeceu os beiços, provando o suor salgado mais uma vez. Pisou o solo com o pé esquerdo, pegou impulso para trás, equilibrado numa só perna, enquanto a outra varava o adversário a sua traseira com um chute giratório. Alto e potente. De quebrar ossos. Escutou um baque poderoso e um grito abafado. Naquele milésimo captou a face desfigurada de dor de um dos corredores mais velozes – um dos que ele achava já ter abatido. Tudo bem. Agora ele não voltaria a se levantar.

A ideia de seu treinador se revelava bem-sucedida. Conforme tinham anunciado, seria uma corrida sem regras e sem fiscalização, logo era sensato conjugar o treinamento do fôlego, da resistência e da velocidade com outra coisa – como, por exemplo, kung fu e tae kwon do. O treinador tinha contratado um mestre nessas artes marciais, para ensinar o pupilo a golpear enquanto corria – e sem perder a compostura. Ele tinha treinado chutes ao subir uma ladeira montanhosa e, sobretudo, ao descê-la desgovernado. A precisão era importante, assim como o resgate do balanço após o golpe, mas o essencial era não parar de correr.

E até o momento a tática tinha funcionado. Ele sabia que, se o primeiro dos corredores mais velozes tinha se recuperado, a qualquer instante o segundo estaria agarrado a seu calcanhar. Sim, a qualquer instante. Paciência era a chave. O ponto ótimo surgiria em breve. Já o pressentia atrás de si… Agora! Mais um chute circular – que, no entanto, não completou uma volta. Interrompeu-se na metade. O adversário bloqueou o golpe, os braços em cruz diante da cabeça. Por longos cinco segundos não mudaram de posição, enquanto a brisa soprava e o sol escaldava, pois a natureza era indiferente à explosão de energia que tinha acabado de acontecer. A poeira soerguida assentou, e os dois corredores trocaram olhares e sorriram. Reconheceram um ao outro como oponentes dignos.

Eis que a diversão começaria de verdade. Seu adversário soltou um brado repentino, e ele assumiu pose defensiva, no aguardo do impacto. Estava certo de que o grito era um kiai; seu mestre o tinha instruído a respeito. Mas nada veio. Viu o oponente cair enquanto outros kiais brotavam de sua boca. Apertava o tornozelo, a expressão amargurada. Não. Não eram kiais. Eram berros e lamentos da mais pura dor. Ele só teve tempo de enxergar de relance a flecha alojada na barriga da perna do outro. Depois uma ardência excruciante irradiou de sua testa para o interior de seu crânio, e ele desfaleceu.

Não saberia avaliar o quanto seu treinador tinha se enganado. Bem, era claro que não saberia, porque agora estava inconsciente. Porém a constatação a que teria chegado era esta: numa corrida em que tudo vale, não é jogo ficar em primeiro, pois os primeiros se tornam alvos, e quem está mais atrás é que pode mirar. Oh, e havia tanto com que mirar: arco e flecha, estilingues, lanças de arremesso, redes e projéteis diversos. Houve feridos, mas nenhum morto: um grau de decência foi preservado. Ah, sim, e houve muitas e muitas apostas.

Só que ninguém esperava pelo desfecho. Ocorreu que o competidor que tinha se mantido em último lugar durante toda a corrida, sem despertar suspeita, foi afinal sagrado campeão. Se nosso protagonista corredor-lutador não se encontrasse combalido, talvez ele se lembrasse da fábula sobre a tartaruga e a lebre – e de sua lição de que velocidade importa menos do que esperteza.

Não, não é isso.

Na realidade, não é bem essa a moral da história.

Ok, tudo bem. De todo modo, a fábula não serve de comparação. Porque a tartaruga, ao contrário do campeão – o primeirúltimo lugar, o último a restar de pé –, não levava consigo uma zarabatana com dardos venenosos.

Sim, esta é a moral: algo a ver com dardos venenosos. Ou com uma zarabatana.

Tanto faz.

 

Fonte da imagem em destaque: http://www.deviantart.com/art/The-Lanes-of-the-Track-117031848.

2 Comments
  • Juliano Rossin
    fevereiro 23, 2014

    Algo nessa corrida me fez lembrar da Maia que correu um bocado no meu texto.
    Bom, mas sobre o teu texto: esse é o texto mais diferente que eu li seu até agora. Teve um momento que o texto ficou com muita pontuação, lá no começo, mas de resto tá muito bem escrito como sempre. E cheio de detalhes que nos faz ter uma melhor imagem do todo.
    Gostei do enredo e do desenvolvimento da trama. Porém aqui no final a coisa deu uma agilizada, muita coisa aconteceu com pouca explicação. Por exemplo a explicação de quem ganhou. Dá pra aumentar o texto com essas notas sobre os outros concorrentes e tal, acho que só vai enriquecer o trabalho.
    abraço.

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    março 3, 2014

    Hahahahaha, sim, agora que vc falou, lembra mesmo a Maia. :P
    Pois é, meu objetivo aqui era escrever um enredo bem aleatório mesmo. Por isso não me preocupei muito com o contexto nem com a profundidade dos personagens. Para ser sincero, não estou satisfeito com este texto, mas ao mesmo tempo não tenho vontade de melhorá-lo. Talvez por preguiça, não sei. Desde o início não planejava investir muito neste conto.
    Logo, concordo com todos seus apontamentos e sugestões. Eventualmente, quando a vontade surgir, darei uma ajeitada no texto, hehehe!
    Abraço e vlw por comentar.

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