Os minutos que precedem

Sinto o coração dar um salto dentro do peito – daqueles parecidos como quando andamos de carro sobre montículos em uma estrada de terra e somos jogados ali no banco de trás -, um salto mais alto do que o normal e então depois vem o som forte da batida. Bummm! O sangue corre ligeiro espalhando-se por todo o corpo dentro destes micro tubos que percorrem-me da cabeça aos pés. Eu simplesmente abro os olhos imerso nesse bloco denso de escuridão que é a madrugada. Respiro fundo, pela boca, e o ar sai em solavancos.

Fixo o olhar no teto até conseguir discernir o lustre com ventilador que fica ali pendurado no meio. Sei que não adianta tentar fechar os olhos para dormir novamente. O sono foi embora.

Ao virar o rosto para a esquerda eu vejo as horas verdes brilhando do aparelho de som. Ainda falta tempo.

Penso que poderia pegar um cigarro, acender a chama dourada do isqueiro e fazer alguns fantasmas fugirem assustados. Ao aproximar o fogo do cilindro que prenderia em minha boca ouviria o chiar das ervas ali comprimidas mas o associaria com o farfalhar de folhas brincando em ventos de outono. Então tragaria profundamente, engoliria metade de sua fumaça viciosa e sopraria o restante, deixando que o ar estagnado do cômodo usasse sua palidez e desenhasse formas oníricas na penumbra. Poderia rir ou até mesmo me assombrar dependendo da interpretação que minha mente fizesse de tais formas. Porém, não fumo. Não tenho cigarros. Nem ao menos um isqueiro para afugentar as sombras que me cercam.

Olho o relógio novamente e os minutos que precedem o amanhecer parecem se arrastar em campo minado. Há insegurança em mim, eu sei, mas não há nada que possa fazer para sanar essa atitude que me é tão familiar.

Sei que sobre o criado mudo, à distância de meio braço, está o dos Anjos que ando a ler. Único livro de um autor tão… como posso dizer… tão fora de seu tempo, talvez. Ao ler as páginas de Eu e outras poesias sempre tenho de ter um dicionário por perto pois as palavras orgânicas e a excentricidade dos adjetivos fazem-me sentir como um ser muito limitado, que precisa de demasiado tempo para mastigar, sentir o gosto e digerir para então saciar-me a fome do saber. E apesar de ser uma boa ideia usar este tempo avulso para ler, decido que é melhor manter distância de palavras que podem influenciar-me diretamente. Posso me machucar muito mais com palavras e eu tenho o dom de fazer isso.

De repente estou cantarolando: deixava aquela música invadir a sala; pra preencher o espaço que você deixou; quem sabe você volta; até a música parar. Uns dos sons que mais gosto do Jay Vaquer. Quando será que vou ver outro show desse cara? E então escuto o som de um carro que estaciona pelas proximidades. Um arrepio leve toma conta de meus braços que estão para fora do edredom e involuntariamente eu os coloco sob a falsa proteção do tecido. Controlo o fluxo de minha respiração e abro não só os ouvidos, como todos os poros, para tentar captar melhor os sons que vêm de fora. O alarme é acionado ao som de um bip quase ensurdecedor no meio de todo o silêncio. O calçado é pesado e faz um som grave ao pisar na calçada, deve estar usando um coturno ou bota do tipo. Pisa em folhas secas como se fizesse de propósito, anunciando que a morte lhe serve como capacho. É uma pessoa determinada, penso isso enquanto ouço seu caminhar resoluto e firme, até ele parar com um pisar mais forte. Baixo, porém audível para mim, escuto sua voz grave e bela dizer:

- Tô aqui na frente. Abre o portão pra mim – provavelmente dito no celular.

Essa ligação era para a vizinha. Não demorou muito e eu a escutei abrir a porta, depois o portão e pra finalizar, o som de vários beijos estalados e respirações aceleradas.

- Nessa camisola você tá uma delícia. – Foi o que a voz grossa disse depois que ouvi o som de tapa. – Vamos continuar isso lá dentro.

Cedi um tempo à curiosidade tentando escutar mais alguma coisa depois de entrarem, mas nada além de imaginação chegou aos meus ouvidos.

Os minutos que precedem a sua chegada são agoniantes. Sofro com sua teimosia em demorar a aparecer. Entretanto, mesmo que eu fosse crente em qualquer tipo de entidade e suplicasse para que o trouxesse mais cedo para mim, meu pedido seria negado e seria humilhante ver minhas lágrimas pedintes rogando algo imutável.

É cruel demais.

Alguns pensamentos fugidios depois me levam a notar o breve clareamento do teto. Olho desesperadamente para o horizonte através da janela e no céu a aquarela começa a ser pintada em tons que não me canso nunca de admirar. Agora tremo de excitação diante de seu iminente aparecimento. Minha mente se cala porque ela quer ouvir o instante exato de sua aparição. Então ouço. Depois, com serena calma sinto-te tocar minha pele que sôfrega se desvencilhou da proteção que lhe era o edredom. Torno-me forte, com sensação orgulhosa e arrogante de invencibilidade. Intocável por qualquer outro que não seja você.

Contudo, percebo que não lhe terei para sempre. Passageiro será, a certeza me confidenciou e nela posso crer piamente.

Então, ante os minutos que precedem a sua partida, procuro aproveitar-te de forma como se não viesse amanhã. Torno-me sorrisos infinitos e deixo para esconder entre a noturna escuridão, as lágrimas que vertem da solidão.

——

Imagem cedida por Pedro.

3 Comments
  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    abril 11, 2014

    Muito bom, Juliano! Sublime. Dá mais profundidade àquela ideia de que se tem de viver cada dia, o hoje. No início achei que se tratava de alguém perdido ou desiludido – e talvez tenha algo disso mesmo -, mas o principal é que ele está à espera do amanhecer. (O isqueiro que ele pensa em usar, apesar de não fumar, anteciparia o amanhecer, com a luz espantando as sombras?) Muito legal, criativo, poético.

    O dos Anjos é o Augusto dos Anjos? Ele é genial. :D

    Quanto ao texto em si, acho que às vezes vc pode omitir o pronome. Por exemplo em “Eu simplesmente abro os olhos”. para ficar só “Simplesmente abro os olhos”. E é isso. De resto está ótimo. Curti as metáforas e símiles. Parabéns!

  • Juliano Rossin
    abril 24, 2014

    Rodrigo, a ideia nasceu com o título: os minutos que precedem, e num primeiro momento seria uma pessoa, mas depois quis deixar uma coisa mais escondida, ambígua. Naquela angústia que temos de sempre esperar por algo.
    O dos Anjos é o Augusto sim, adoro ele apesar de não ser muito conhecido, assim como o Jay Vaquer, cantor nacional muito bom mas que não tem muita divulgação.
    Obrigado pela leitura e pelas dicas, sempre valiosas.

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    abril 24, 2014

    Entendi. Pois é, acabei interpretando como “os minutos que precedem o amanhecer”, mas realmente o conto pode se referir a qualquer espera angustiante que costumamos enfrentar.

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