Entre Irmãos

Por quarta-feira, abril 9, 2014 5 , Permalink

As colunas de fumaça manchavam o anil do céu. O calor e o mormaço subiam em pequenas ondas e ali e acolá, alguns focos de incêndio ainda queimavam de forma tênue, quase que extintos. Ao lado do que havia sido uma vila, a imagem do que um dia fora uma floresta. Galhos enegrecidos e destorcidos, árvores caídas e chamuscadas. Cinzas do que um dia fora verde.

Entre o que parecia ter sido dois robustos e imponentes imbondeiros, algo se moveu na relva seca e morta. A terra cedeu e foi afundando, até revelar uma grande mão. Negra de nascença, e queimada pelo sol, o que a tornava mais negra ainda. O braço saiu até a altura do cotovelo, até que o outro braço apareceu, puxando uma espécie de alçapão feito de ramos entrelaçados.

O lugar era um esconderijo, que outrora, havia sido uma armadilha para animais. Era apenas um retângulo cortado na terra, com uma profundidade de dois metros. Após aberto, o mormaço quente inundou o local. Lentamente, um garoto– quase um homem– se esgueirou para fora. Negro como carvão, alto e de porte robusto, aparentava ser um adolescente. Não chegava a ter quinze anos. Os olhos arregalados e amarelados denotavam certo receio. Desconfiado, perscrutava todo o redor. Caminhou por entre os destroços e os mortos, à procura de algum perigo, e só depois de alguns minutos, virou-se e voltou para o buraco. De lá retirou uma criança. Uma menina, tão negra quanto ele. Pequena e magricela. O cabelo fazia menção a um ninho de pássaros. Colocou-a de pé e ela fitou tudo aquilo a sua frente.
Destroços.

Tudo o que podia ver eram apenas destroços. Mesmo com seus cinco anos de idade, foi acometida pela compreensão que só mesmo aqueles que lutam pela existência, já no auge de sua idade, podem ter. As lágrimas brotaram em seus olhos e ela começou a chorar copiosamente. Ao seu lado, com os olhos marejados e um semblante desolado, seu irmão encarou a destruição por um bom tempo. A fumaça irritava seus olhos e o calor começava a se tornar insuportável. Ele olhou para a irmã, e se agachou, lhe dando um abraço.

– Zaila, olha pra mim – afastou-se e a mirou nos olhos – vai ficar tudo bem, eu prometo pra você.

– Cadê… pa… pai e… mamãe? – As palavras saiam sofridas de sua pequena boca, rachada e seca.

– Eles não estão mais aqui.

Zaila chorou ainda mais e seu irmão a abraçou novamente. Suas lágrimas vertiam pelas costas dele, enquanto a apertava em um forte abraço, segurando o choro. O fogo se tornou apenas um resquício, e a única coisa que sobrara era a fumaça e a sensação incômoda.

– Não é seguro aqui – Passou os braços por trás das pernas da irmã, e a ergueu no colo. – Precisamos ir embora. O calor espantou os animais e não deve estar seguro mais a frente.

Saíram daquele lugar aos pedaços, deixando para trás apenas cinzas e lembranças mortas. Um fantasma daquilo que um dia fora suas vidas.

***

O som dos tambores preenchia o ar, enquanto todos dançavam em volta da fogueira. Com o batuque alegre e a dança frenética, as pessoas balançavam seus corpos de um lado para o outro, e riam. O céu límpido e estrelado trazia um bom presságio para os próximos cinco dias. O soba sentava-se em sua cadeira alta, e ao seu lado, sua mulher. Eles riam e bebiam enquanto seus dois filhos rodopiavam em volta do fogo.

A menina era nova, tinha por volta de seus cinco anos. Dançava no meio de outras meninas, com aparências muito mais velhas. Ela rodopiava e jogava os braços para cima, pulava, gargalhava e cantava. Aos olhos do pai, aquilo era sinal de que se tornaria uma mulher muito cedo, e seria uma boa mulher. O menino já era quase um homem, tinha quatorze e faria quinze naquele ano. Era alto e forte. Com o rosto pintado, remexia-se virilmente tentando atrair atenção das meninas. Era o orgulho de seu pai.

A noite caia e as faíscas lançadas ao ar assemelhavam-se a estrelas cadentes. A euforia tomava conta do recinto, e o som dos batuques impedia-os de ouvir qualquer som de fora. Por isso, não perceberam quando os demônios chegaram.

As criaturas da noite caíram sobre eles como um trovão. Os gritos cortaram o ar e alardearam à noite. O barulho de aço e lanças voando preencheu o ambiente de imediato. A confusão tomou conta do lugar e as pessoas corriam desorientadas de um lado para o outro. Os homens tentaram lutar, mas foram sendo abatidos aos muitos.
O soba correu para perto de sua filha enquanto chamava por seu filho, que ficou paralisado, fazendo menção de que enfrentaria o que estava por vir. Ele correu até o menino e o puxou.

– O que tá fazendo? – perguntou a ele, enquanto segurava a filha nos braços.

– Eu vou lutar meu pai. – seus olhos tentavam demostrar coragem, mas havia ali um medo contido. – Eu sou quase um homem, e um guerreiro deve lutar por sua tribo.

– Você tá ficando maluco. – ele agora o levava para longe da confusão.

As pessoas corriam desesperadas para lugar nenhum. O menino olhou para o lado quando um homem correu até uma cabana, e logo em seguida, uma tocha foi jogada no telhado e o fogo se alastrou. –… ouviu o que eu acabei de falar? Escondam-se entre as árvores anciãs.

– Mas e o senhor, pai?

– Eu vou lutar. A partir de agora, você é o homem da tribo e vai cuidar sua irmã. Promete pra mim.

– Eu não vou prometer nada. Eu vou lutar junto do senhor. – Seu pai lhe deu um tapa que fez seu cérebro chacoalhar.

– Você vai se esconder com sua irmã e vai ser agora. – ele empurrou os dois em direção às árvores, enquanto a menina chorava inconsolavelmente. Chegando entre os imbondeiros, ele chutou a terra por cima do local e puxou os galhos para cima. Seu filho pulou primeiro, e depois ele colocou a menina. – Filha, vai ficar tudo bem. O pai já volta. – Beijou os dois na testa e fechou o alçapão. Chutou a terra para cobri-lo e sumiu no meio do caos, urrando feito um louco.

Os dois ficaram ali, abraçados e amedrontados. A menina soluçava baixinho enquanto o irmão fitava o escuro. Ninguém sabia o que o amanhã traria, mas no final, a lua havia mentido. Não havia um bom presságio.

***

Caminharam pelo que pareceram horas. Saíram dos destroços da vila e da floresta, e adentraram uma mata densa. O cinza havia ficado para trás, e somente o verde predominava. Pequenos raios de sol quebravam a barreira densa de folhas. Os pequenos feixes lançavam a luz amarelada, que dançava junto com o vento, iluminando-os enquanto caminhavam por uma trilha de vegetação rasteira. Mosquitos zumbiam ao seu redor, e vez ou outra eles os espantavam.
– Zere – Zaila estapeou o pescoço na esperança de matar o inseto. Andava ao lado do irmão, e suas pernas pequenas esforçavam-se ao máximo para acompanhá-lo.
– O que foi? – ele caminhava com mais facilidade. Conhecia cada canto daquela mata. Caçava ali desde pequeno, e os outros guerreiros o haviam ensinado onde deveria ir, e onde deveria evitar. Em suas costas ele carregava um arco. A corda velha e desgastada trespassava seu peito nu. E em suas mãos, carregava uma lança. O caminho era perigoso, e por isso ele havia revirado os destroços em busca de alguma arma. Encontrou um pedaço de madeira meio enegrecido, forte o suficiente para matar um animal, e um arco de madeira simples com uma flecha.

– Pra onde a gente vai?

– Vamos até Ngola e dizer o que aconteceu.

– Mas e se estiver morto também?

– Fugimos para o mais longe que pudermos. Certamente iremos encontrar abrigo em outra tribo.

– Eu tenho medo.

– Medo de quê?

– De todo mundo morrer. – olhando para o chão, caminhava a passos firmes. Já não falava mais como criança, e sabia exatamente o que havia acontecido a seus entes queridos. – Promete pra mim que você vai ficar vivo?

– Eu prometo. – falou, virando-se para ela. Seu coração sentia-se pesaroso. A visão da inocência perdida de sua irmã era como uma flecha atravessando seu coração. Ambos haviam perdido tudo, mas ele já era um homem, ao passo que a irmã era apenas uma criança. A dor de sentir o pesar de uma criança, junto da dor da própria perda, tornava tudo muito mais difícil de ser suportado. Mas ele era um guerreiro, um soba sem seu povo, mas ainda sim, era seu dever manter a cabeça erguida.

Cortaram por entre a mata durante uns bons metros, até pararem ao lado de um pé de marula. Estava carregado e suas frutas exibiam um amarelado forte de aguar a boca. Retiraram alguns frutos, descascaram com os dentes e aproveitaram o suave e delicioso suco. O vento corria de forma refrescante, e o som dos insetos zumbindo, junto ao canto dos pássaros, formava uma melodia inebriante. O néctar escorria por suas bocas enquanto, por aquele momento de paz e irmandade, se permitiram sorrir.
Até o momento em que uma flecha atravessou a perna de Zere.

Foi rápida e sem avisos. Um risco cortando o ar e atingindo com precisão o alvo. Ele olhou para flecha crivada em sua panturrilha, e a compreensão se demorou por alguns segundos. E quando conseguiu sintetizar aquela situação, gritou.

Zaila olhava para o irmão, incapaz de poder ajudar. Estava tão concentrada na fruta que tinha nas mãos, que não viu o momento em que a flecha o atingiu. O silêncio repentino que se sucedeu chamou sua atenção. A flecha havia transpassado até a metade, e o sangue já começava a escorrer. Zere estava sentado em uma pedra, e caiu. Ela prostrou-se ao seu lado, e sem saber o que fazer, desatou a chorar.

– Ei, me escuta – ele mantinha a perna imóvel, mas a dor cruciante percorria seu corpo causando-lhe arrepios – você precisa fugir daqui agora. Não deixe que te peguem, me ouviu?

– Mas e você? – seus pequenos olhinhos escorriam como uma catarata. Sua cabeça de criança, não estava suportando aquela pressão repentina, e o choro era algo que amenizava, mesmo sendo inútil. – Eles… vão… te pe… gar!

– O que importa agora é você! – ele colocou as mãos levemente no pescoço dela, puxando-a para si. Ficaram ali, testa com testa. Ele chorava agora também, pois no fundo, sabia que tudo aquilo seria em vão. Esconder-se, fugir e tentar encontrar ajuda, correr… nada disso iria adiantar. Por isso ele chorava, e também chorava por saber que assim como ele, sua irmã não conseguiria escapar. – Eu disse ao pai que te protegeria, não disse? Foge daqui agora, antes que cheguem!
Ela se levantou lentamente, e com o choro ainda incontido, fugiu. Mas já era tarde demais, pois os demônios haviam chegado.

Zaila correu por trinta metros, quando das árvores, as criaturas saltaram. Eles tinham aparências grotescas e intimidadoras. Uns tinham rostos pintados, enquanto outros exibiam faces animalescas. A maioria usava peles de animais. Dois a cercaram pela frente, e mais um por trás.

O caminho pelo qual seguiu, era uma trilha que só progredia ou retrocedia. Sem ter para onde correr, ela congelou. Os soluços vinham fortes e altos. As bestas nada falavam. Apenas apontavam suas lanças em sua direção. O homem que estava atrás caminhou alguns passos para frente. O som do impacto saiu seco quando uma flecha atravessou sua cabeça.

Zere, agora com o arco em mãos, tentava se levantar. As criaturas apressaram-se até Zaila, e a tomaram. Ela gritava e esperneava enquanto era levada, deixando seu irmão para trás, com um grito que era um misto de dor e raiva.

Apoiando-se onde podia e com a seta ainda atravessada na perna, ele se levantou. A ferida latejava e escorria o rubro sem parar. Aos pulos, encaminhou-se para uma pedra mais a frente. Sentou-se nela e apoiou o pé na outra. Sabia que a dor que iria sentir, seria suficiente para desmaia-lo, mas também sabia que a chance de uma infecção seria duas vezes maior, caso aquilo continuasse ali. Achou um pedaço de madeira jogado ao chão, colocou-o na boca e respirou fundo. Segurou na haste da flecha e se preparou para puxa-la. Quando então, seus braços foram puxados para trás, imobilizando-o. Dois homens o seguravam, e um veio a sua frente.

– Então foi você que matou meu soldado? – o homem era negro piche. Usava um saiote que começava no peito e descia até os pés, preso na cintura por um tipo de cinto feito de tecido. Carregava uma aljava às costas, um arco trespassado pelo corpo, um chicote preso à cintura de um lado e uma faca com cabo de marfim no outro. Nas mãos, levava uma espada grosseira feita de ferro cru. Ele olhava para Zere de forma inquisitiva e com certo desprezo – Fale, seu puto!

Zere estava imóvel. Olhava o homem com toda a raiva possível. Tentava, em vão, se debater, mas não conseguia se soltar do forte aperto dos homens que o seguravam.

– Eu vou te ensinar, seu merda, como eu lidou com animais como você! – pegando o chicote que estava a sua cintura, ele o desenrolou, fazendo um estalido. Puxou-o com força para trás, e desceu-o, como um navalha. O golpe foi preciso e doloroso. O fio corrompeu a pele do rosto, e o sangue escorreu instantaneamente. – Tá vendo como é? Tira essa flecha da perna dele e vamos embora. – concluiu, enrolando o chicote e dirigindo-se aos outros homens. Um deles tirou uma corda da cintura, e amarrou as mãos de Zere. Deitaram-no ao chão, e enquanto um o segurava, o outro puxou a haste de uma vez só. A dor corrompeu a sanidade e o grito preencheu o ar, percorrendo por centenas de metros, espantando pássaros de seus galhos. O sangue descia infindavelmente. O homem passou um pano pelo ferimento, amarrou bem apertado e se levantou. Colocou-o de pé, e o fez andar, como se nada tivesse acontecido.

Um grupo de pessoas estava reunido ao lado de um afluente. Alguns homens caminhavam de um lado ao outro, portando armas. Alguns riam e conversavam. Enquanto isso, amontoados em um canto mais afastado da água, outro grupo de pessoas, todos esses presos por grilhões, sentavam-se com olhares mortiços e desolados. Entre eles, uma entre muitas menininhas. Essa tinha um cabelo de ninho e era magricela como um graveto. Outras crianças a observavam, com olhos fundos e questionadores. Por todos os lados se viam adultos, alguns magérrimos e com sinais de desnutrição, a maioria mulheres e idosos, enquanto outros aparentavam estar mais fortes. Homens robustos e surrados por todo o corpo. Usavam farrapos de roupas e tinham a marca do chicote pela pele.

Zaila fitava o chão quando os homens chegaram. Desviou seu olhar e percebeu que traziam um garoto consigo. O rapaz mancava e uma atadura vermelha estava envolta em sua perna. Ela percebeu que se tratava de seu irmão, e começou a gritar, chamando por seu nome. Ele, vendo-a, tentou correr em sua direção, mas um choque trespassou por seu corpo, saindo do ferimento, atravessando até o ultimo fio de cabelo. Atrapalhou-se com os grilhões que haviam sido postos, unindo suas pernas, e caiu. Os homens riam avidamente enquanto outros o levantavam. A figura que parecia ser o líder se aproximou dele.

– Aquele rato ali é sua irmã? – ele aguardou resposta e só recebeu silêncio. Desenrolou o chicote outra vez e o fez estalar na carne. – Não vai falar comigo não? – o chicote descia rasgando o ar. Os homens que o seguravam deixaram-no cair, enquanto deitado, foi sendo chicoteado por um bom tempo.

– Você não vai me responder, mas eu te adianto o que vai acontecer. – agora o homem guardava o chicote, e a sua frente algo que parecia ser um saco com feridas abertas. – Ela é nova demais, vai morrer antes de chegar ao navio. E vai se preparando, você ainda vai apanhar muito nessa sua vida. – concluiu e caminhou para longe, distribuindo gritos e mandando que todos se ajeitassem.

O crepúsculo já anunciava seu tom rosado quando o grupo chegou ao ponto de parada que ficava do outro lado do rio, na fronteira do Reino do Kongo. A fumaça já os deixara há muito, e agora o céu escurecia a sua frente. Eles acomodaram-se como puderam. Estavam um preso ao outro pelos pés, que já mostravam marcas horrendas em função da fricção com os grilhões. Suas mãos também estavam atadas, mas cada um tinha sua própria algema. A fila começava com os homens à frente, mulheres e crianças no meio, e mais uma fila de homens atrás. Zaila estava na parte do meio da fila, enquanto seu irmão se encontrava ao final.

Ao longe, ela conseguia vê-lo. O rubro ainda escorria enquanto ele caminhava os últimos metros. Fitava o chão e tinha um semblante taciturno e perturbado. Sentou-se a beira dos outros e continuou em silêncio. Seus olhos perscrutaram o ambiente, até pararem nos dela. Moveu a boca como dizendo que estava tudo bem e lhe deu um sorriso. Ela retribuiu de forma tristonha, e mais uma vez, começou a chorar. Começou com poucas lágrimas, até as mesmas tornarem-se pequenos soluços, e então, desencadeou um berro que chamou a atenção de todos. Até mesmo de quem não deveria.

– Cala a boca, macaca! – um dos soldados gritou, mas sem efeito. Aproximou-se dela e segurou-a pelo pescoço. – Mandei tu calar sua boca! – ela cuspiu na cara dele, e ele lhe deu um soco que arrancou um dente. As pessoas em volta tentavam se afastar, mas era em vão, pois quando puxavam suas correntes, arrastavam Zaila consigo. Zere se levantou e gritou para o homem.

– Tira as mãos dela! Tira se não te mato! – o soldado caminhou em direção a ele. Segurava um pedaço de madeira em forma de porrete.

– Tu vai fazer o que, hein? – Segurou o porrete com as duas mãos e mirou as pernas de Zere. Ele tentou pular, mas ao meio do caminho, as correntes o seguraram. O pedaço de pau acertou suas pernas e ele caiu chocando os ombros no chão. O homem o chutou no estômago – Fica deitado aí, seu merda!

– Quê que tá acontecendo aí? – quem perguntava era o líder.

– Aquela macaca não parava de chorar. – falou apontando para Zaila – Fui mandar ela calar a boca e ela cuspiu ne mim. Depois esse macaco aqui gritou comigo, eu vim aqui e bati nele.

– Está querendo proteger a sua irmã, né? – perguntou ele, virando-se para Zere. Tomou o porrete da mão do agressor e caminhou em direção à menina. – Tire ela dessas correntes. – As outras pessoas observavam enquanto um soldado tirava os grilhões. Depois de terminado, ele se foi. O homem então a segurou pelas algemas e a arrastou para a beira d’água. Ela chorava e se debatia, xingando e tentando morder.

– Você quer proteger sua irmã, né? – gritou para Zere

– Eu vou te matar! Não… NÃO! – berrou mas foi em vão.
Por trás dela, o porrete foi sacudido com toda a força, acertando em cheio sua cabeça. O som oco e seco foi audível por todos. Zaila caiu na água já sem vida, enquanto a correnteza carregava seu corpo adiante.

– Tá vendo? – falou ele jogando o porrete no chão – Eu disse que ela não ia sobreviver.

– MALDITO! EU VOU TE MATAR SEU MALDITO! SEU MALDito… – O choro que estava incontido soltou-se todo de uma vez. As pessoas à sua volta também choravam e tinham os olhares complacentes. Mas ele só era capaz de ver uma única coisa. Um corpo descendo o rio. O sangue fazia uma aura vermelha em volta da cabeça. Seus olhos foram perdendo o foco aos poucos, até restar só escuridão.

Acordou assustado, com um soldado batendo-lhe no rosto. Recebeu um pedaço de pão duro e um copo de água. Comeu rapidamente e sorveu o liquido apreciando cada gota. Sua cabeça dava voltas e mais voltas, e o pesar de seu coração o atrapalhava até a andar.

Caminharam durante mais três dias por entre florestas e campos. As moscas rodeavam os machucados de Zere, que haviam tomado uma coloração roxa. A noite ele ardia em febre, e de dia era ainda pior, por ter que andar. Ele quase morreu durante a viagem, e se deixou levar por isso, mas acabou conseguindo chegar. Crianças, mulheres e idosos, em sua maioria, ficaram pelo caminho. Alguns feridos e outros cansados. Caiam sem aviso e lá mesmo ficavam. Um soldado vinha, tirava os grilhões, jogava o corpo para fora da trilha e juntava a fila novamente. E foi assim, com o número diminuindo aos poucos, que chegaram à cidade costeira.

Havia enormes navios ancorados no porto, e um movimento infindável de pessoas. Outros negros estavam colocados em grandes jaulas, onde ficavam presos uns aos outros por seus grilhões. Homens brancos caminhavam de um lado para o outro, empopados em suas roupas grossas e chamativas. O calor era maçante e ficar dentro daquilo parecia ser um inferno.

O grupo que havia chegado foi alocado dentro de jaulas, menos Zere. Ele despertou a atenção de alguns homens devido ao seu tamanho e porte, e foi levado para ter seus ferimentos tratados, pois caso o contrário, não suportaria a viagem. Deixou-se ser lavado e recebeu um emplasto de ervas no ferimento. Dois dias depois, foi liberado. Seus machucados em sua maioria começavam a cicatrizar e ele conseguia manter-se de pé. Andava como um homem morto, não expressava nenhum tipo de sentimento e nem mesmo era capaz de reagir a estímulos externos. Parecia fora do mundo e fora engolido por um silêncio frio e sombrio. Não falava desde o dia em que Zaila havia sido morta, e seus olhos pareciam baços e perdidos.

Foi alocado em uma das jaulas e junto dos outros, permaneceu por lá mais um dia. Até que um grande navio atracou no dia seguinte e um novo grupo chegou. Juntaram todos, uma quantidade enorme, e levaram em direção à caravela. A rampa estava baixa e ao lado dela, o homem de chicote aguardava.

– Entrem seus malditos! – o chicote assobiava enquanto descia ao chão. O grupo entrou e foi se amontoando no pequeno espaço reservado. Um espaço extremamente pequeno, para um número absurdo de pessoas. O homem viu Zere caminhando entre a multidão, e o chamou. – Já melhorou? Tá me olhando com esses olhos amarelos por quê? Quer levar uma chicotada?

Levantou o chicote em direção a ele, que andava na fila mais próxima. Quando então, Zere deu um pulo em sua direção, arrastando todos que estavam presos as suas correntes. Os dois caíram e se embolaram no chão. Zere Tentava sufocar o homem com as algemas quando os soldados vieram e o tiraram de cima, apartando a briga.

– Então é isso? Já não apanhou o suficiente? – levantou o chicote para bater nele, quando uma mão o segurou.

– “Ele é minha propriedade agora, não o quero batendo nele.” – Este, falando em outra língua, vestia-se de forma pomposa e trazia um negro ao seu lado, também vestido espalhafatosamente.

– É propriedade dele, e ele não quer que bata. – traduziu para o homem do chicote, que abaixou as mãos e fuzilou Zere com olhar.
Os últimos escravos embarcaram e então a rampa subiu.

Naquela mesma noite, Zere estava sentado em um canto, taciturno e perdido. O mais afastado que suas correntes permitiam.

– O que aconteceu? – o homem percebeu o peso que o cercava, e se aproximou. Era apenas mais um velho escravo condenado.

– Meu mundo acabou.

– Não é a vida que a gente quer, mas é vida. A gente acostuma. – Esperou por um instante e recebeu apenas o silêncio e um semblante vazio.

O homem o fitou. Tinha olhos encanecidos e cansados. Depois de um tempo, afastou-se e se deitou em um canto.

Acordou no meio da noite, com a sensação de alguma coisa molhando suas costas. Virou-se e encontrou Zere caído ao chão e já sem vida. Embaixo do seu queixo, sobressaia algo feito marfim.

Naquela noite, havia um eclipse lunar, e a lua vermelha chorava seu sangue, por ter quebrado uma promessa.

5 Comments
  • Rainier Morilla
    abril 15, 2014

    Ah! Que leitura agradável. Quer dizer, o texto está gostoso de ler. Agradavel é uma forma de falar porque tudo o que o conteúdo trás é dor e angústia. Você soube passar isto muito bem Jeff!

    A história está muito boa, é angustiante. Só achei ruim o q acontece com o personagem no final. Esperava mais dele, já que ele venceu tantos desafios para ficar vivo.

  • Jefferson Lemos
    abril 15, 2014

    Fico feliz que tenha gostado! Foi uma experiência e tanto escrever um drama.
    Então… o fato de ele morrer, é porque o desafio era sobre fim do mundo (o conto foi escrito para a participação do desafio do Entre Contos), e o mundo dele acabou quando seus ente queridos pereceram.

    Já fiz com esse intuito de ser dolorosa.

  • Rainier Morilla
    abril 15, 2014

    Muito bacana! Nunca tinha ouvido sobre o Entre Contos. Procurei o site e gostei do que vi!

  • Jefferson Lemos
    abril 15, 2014

    Pô, tenta participar de lá! Dá uma olhada nos regulamentos para ver como funciona.
    O novo tema sai nessa madrugada, e pelo visto será Faroeste!

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    abril 17, 2014

    Sim, ficou muito legal. Tocante mesmo. O enredo flui bem, e os sentimentos retratados têm uma força incrível. Vi em seus comentários que se trata de um conto sobre o tema “fim do mundo” e gostei do que vc fez: é uma interpretação bem original da ideia-base. A princípio achei o drama excessivo, admito, mas depois percebi que a trama fala de escravidão e mudei de posição: desdramatizar não faria jus ao assunto abordado, não seria apropriado. Então vc fez muito bem. Parabéns!

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