Entre palavras alheias

Por segunda-feira, abril 14, 2014 7 Permalink

Meu dia havia sido um cu. Imagine tudo vindo abaixo ao mesmo tempo e então terá um pequeno vislumbre do que estou falando. Minha cabeça estava parecendo mais um baiacu inchado, o rosto e os cabelos oleosos, os olhos fundos que até pareciam que eu estava usando maquiagem preta abaixo deles. Da última vez que havia me visto no espelho tivera um pouco de dó de mim, depois passou, eu sabia que tipo de pessoa eu era e não cria merecer esse tipo de sentimento.
Se me perguntassem se já havia comido chocolate, respirado fundo ou qualquer coisa desse tipo para tentar aliviar a pressão e relaxar eu diria com toda a sinceridade: vai se foder você e suas mandingas do caralho.
Para relaxar, de verdade, só quebrando a cara de um filho da puta. Apesar de que algo no estilo do filme Clube da luta já estaria valendo, eu acho.
E mesmo com a porra toda me azedando o humor eu tinha que continuar adiante. Havia terminado a joça do trabalho de um cliente exigente em tempo recorde e o gerente nem para dizer algo que me levantasse a moral. Na verdade mal olhou para minha cara e ainda por cima me pediu outro milagre. Se formos falar de vontade novamente o que gostaria era ver esse gerentezinho sentando em cima desse projeto e então ficar rodando que nem pião.
No caminho para casa o tráfego de pessoas lentas caminhando pela calçada me fizeram caminhar pela rua várias vezes, e um mauricinho ou patricinha, não deu pra ver quem estava na direção do carro, quase me arrancou o Olympkus do pé com suas rodas cromadas. Porra, nem havia terminado de pagar as prestações do pequeno mimo que havia me dado e já queriam destruir ele? Esbarrei em algumas pessoas e umas me xingaram, deu para ouvir algo mesmo com o som dos meus fones em volume alto.
Faltavam três quadras para chegar ao meu lar amargo lar quando eu vi um papel no chão. Papel jogado ao chão é o que mais existe em cidade grande, e aqueles que jogam são os que mais reclamam, porém aquele não era papel de propaganda, nem pacote de cigarro nem de picolé, o pedaço branco de papel que me chamou a atenção era uma carta escrita com caneta azul. Sem perceber o que fazia eu agachei e o peguei. Parei e olhei para trás e para frente, pessoas iam e vinham mas apenas encaravam o lugar onde o próximo passo estaria. Ainda de forma automática dei novos passos e parei debaixo de um foco de luz amarelada, desdobrei a carta duas vezes, estiquei um pouco o papel e comecei a ler.
A letra corrida tinha tamanho desigual e o peso da mão na hora da escrita havia deixado marcas em relevo. Senti-me primeiramente invadindo a intimidade de outrem para logo depois sentir-me como um amigo que era todo ouvidos para alguém que precisava desabafar. Lia devagar, não apenas acompanhando as palavras, eu ia sentindo em mim aquelas coisas que meus olhos enxergavam. E assim como eu me sentia havia ali uma mistura de sentimentos que ora se cruzavam obliterando um ao outro e ora se fundiam como se fossem feitos para ser uma única coisa.
Quando terminei tinha lágrimas presas aos olhos que ao piscar rolaram soltas. Deixei aquilo acontecer naturalmente enquanto outras pessoas passavam por mim sem perceber que eu chorava. Um alívio foi tomando conta de mim de forma mágica e me senti leve como há tempos não sentia.
Não consigo me lembrar das coisas que li, senão escreveria aqui para vocês. Só me recordo que involuntariamente fiz daquela carta uma bolinha e joguei no cesto de lixo mais próximo e fui para casa.
Talvez aquilo que experimentei não possa ser sentido de novo, daquelas coisas que só nos acontecem uma vez na vida, mas será para sempre algo tatuado em minha memória como um momento de maior leveza de espírito que já me ocorreu.

7 Comments
  • Rainier Morilla
    abril 15, 2014

    Isso é mais ou menos o que eu sinto quando leio algo na Roda de Escritores. Parece que bate uma sensação de conversar com seu melhor amigo. Eu considero muitos aqui melhores amigos do que os que eu vejo todo dia.

    Muito bom Juliano, não há nenhum enredo complexo ou uma trama bem definida. Estamos falando apenas de um cara que estava estressado e viu seu dia ficar melhor por ler um texto. Entretanto, ficou magnifico, provando que nem só de fórmulas viverá o escritor!

  • Filipe Sena
    abril 17, 2014

    Simplicidade e sinceridade, gostei. A forma como o texto parece desacelerar na conclusão ficou muito boa. A mudança de tom também ajuda na imersão do momento final. Ficou massa.

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    abril 17, 2014

    Hehe, me peguei sorrindo feito um bobo no final. Muito legal a mudança de humor do personagem, inusitada e sutil ao mesmo tempo. O leitor se contagia com isso. E o engraçado é que não chegamos a saber do que se trata o texto lido pelo personagem, mas a emoção é transmitida, a emoção fica.

  • Juliano Rossin
    abril 23, 2014

    E tudo começou quando pensei: meu dia foi um cu… hahahhah é o cotidiano nos fazendo escrever.
    Obrigado pela leitura Capitão.

  • Juliano Rossin
    abril 23, 2014

    Obrigado Filipe. E eis que a simplicidade nos chama atenção né.

  • Juliano Rossin
    abril 23, 2014

    hahaha, sério que sorriu? Poxa, enquanto ia criando eu fiquei pensando no que poderia estar escrito na carta também, e até pensei em umas coisas mas gosto de deixar assim pois cada pessoa pode tentar imaginar uma coisa singular e aposto que se voltar a ler tal texto daqui uns anos você imaginará algo diferente do que imaginou neste momento.
    Vallew pela leitura.

  • Lucas Valadares
    setembro 3, 2014

    Muito bom velho. Eu concordo com as observações do Cittadino e não tenho muito a acrescentar.

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado