Cerveja Gelada

Por quinta-feira, setembro 25, 2014 28 , Permalink

Peguei o cartão da preta e saí, em destino ao supermercado que abriu na esquina da esquina de casa, pra comprá cerveja. O mercado tinha nada de super, não tinham cerveja gelada, não adiantava nem procurar, cheguei à conclusão, uma vez que até no iogurte eu fui e não achei. Peguei meia dúzia de lata quente e fui pro caixa, a menina perguntou ‘cpf na nota?’. Eu não, tá doida, vai que puxam minha ficha, as pensão que eu não paguei, de dois menino, ia pro xis de novo. Mas só disse ‘não’. Ela pegou as lata, uma a uma, e foi passando naquela parada que faz beep. A cada beep minha raiva aumentava, e meu sangue fervia, até que chegou ao ponto de bulição, tá ligado, tava uns 48 grau lá fora e eu sem cerveja gelada. “Me diz uma coisa, moça, que que esse mercado aqui tem de super, hein?” Ela sorriu, mas nem falou nada, e daí eu aproveitei e continuei. “Eu sou pai de família estudado, viu, eu sei, e todo mundo aqui sabe, que pra porra do mercado ser super tem que ter, pelo menos, cerveja gelada”. Nem tinha percebido, mas a mina já tava em choque uma hora dessas, eu tinha subido a voz, me exaltado memo, mas tinha que ser assim, onde já se viu? Se até na quitanda da dona Abigail tem cerveja gelada, dá pra escolher ainda, skol, brahma, kaiser, itaipava, bavariaS. Por que ali não tinha? Até ela não sabia me dizer, ficou com medo, até porque minha mão devia cobrir a cara dela umas duas vezes. Chamou o gerente. O cara veio lá, humildão, sangue bom ele, falou que conhece o Zangalo, que é parceiro meu, trocamo ideia de boa, e saí de lá até com desconto nas lata que peguei. Ia ter que gastar energia elétrica da geladeira em casa, afinal, e nem meu menino mais novo eu num deixo pendurá a toalha atrás da geladeira, nem memo colocar imam, que é pra não puxar energia, por que eu ia ter que pagar pelas breja e ainda ter que gelar elas tudo do meu bolso? Pimenta no dos outro é refresco, esse pessoal deve achar isso. Mas, bom, me deram o desconto, e isso que importava. Ia beber até mais feliz. Voltei pra casa, taquei as lata no congelador e joguei um pouco de água em cima, que é pra gelar mais rápido, tá ligado. Fui pro sofá pensar na vida.

Esse lance de não vender cerveja gelada é foda, pode destruir família e tudo. Imagina quantas família já terminou por causa disso daí. Para pra pensar. Se o pai de família vai no mercado e não tem cerveja, ele vai pro bar. E no bar todo mundo sabe que é mais caro, deram até uma facada no seu Elias, finado, porque ele tava extorquindo o pessoal. Todo mundo queria dar aquela facada, mas foi o Tinho que deu. Falo isso até porque ele já morreu, né, o Tinho, trocou tiro com a polícia, foi o que disseram. E, também, o seu Elias nem morreu por isso, ficou ruim dos pulmão depois duma enchente que acabou com os sofá de metade do bairro. Mas aí, esse lance de cerveja, o pai de família gasta todo o dinheiro nos bar, porque é bem mais caro, e levar pra casa nem pensar, as patroa chia, a minha só não fala nada porque eu deixo ela beber.

Tava passando um filme de cachorro que fala na sessão da tarde, e eu fiquei lá viajando, no sofá novo que tive de comprar por causa da enchente, 1 barão em 22 parcela no carnê. Quase esqueci da cerveja. Chamei a preta, ela buscou, uma pra mim e outra pra ela. Ela colocou no copo. Disse, como sempre, que eu posso pegar alguma doença na lata. “Você não sabe por onde passou essa lata”. “E essa boca aí, já fez muita chupeta em vagabundo antes deu te conhecer, não foi? E eu ainda beijo ela”, retruquei. Ela ficou lá, olhando pra mim. “Cê desceu as lata pra geladeira? Vai congelar tudo!”, eu disse, e ela saiu correndo, não tinha descido. Se eu não falo…

Até peguei no sono, vendo o filme lá. Acordei era umas 10 hora já, as costa tudo doendo, por causa do sofá, tava até terminando a novela. Levantei e fui até a geladeira. Cê acredita que a filha da puta tinha deixado só uma cerveja pra mim? Tinha comprado seis, caralho, tomei uma e ela tomou outra, tinha sobrado quatro. Frequentei a escola, sou bom de conta, ninguém me engana não. Quando a vagabunda chegou, eu já tava com o sangue em bulição de novo, saquei logo um tapa na cabeça, quando ela entrou, ela foi parar embaixo da pia, do lado do bujão. Levantou pedindo desculpa, falando que a irmã foi lá e elas tomaram, a Neide tomou uma e a irmã tomou duas, veja só você. A Neide machucou o joelho, mas não por minha causa não, ela machucou quando caiu no chão, mas essa irmã… Fiquei puto, viu, onde já se viu, vim na casa dos outro e ainda por cima beber da minha cerveja? Tá aí outra coisa que deve destruir um monte de família. Perdoei a Neide e até dividi minha cerveja com ela. A gente meteu até as três da madrugada.

28 Comments
  • #Santo
    setembro 25, 2014

    Quando o @rainiermorilla:disqus e eu lemos esse texto a reação foi instantânea: “Wooooow!”

    Se o poema da carioca Millena possuía a vibe ideal para a abertura da Nova Roda de Escritores, o conto do paulista Murillo Magaroti carrega a força de São Paulo consigo.
    Uma experiência perfeita de técnica a favor da simplicidade e da oralidade na escrita. Tá de parabéns!

  • #Capitão
    setembro 25, 2014

    Comecei a leitura sem quaisquer expectativas. Texto simples, com muitos erros… Engano.

    O texto para manter esse nível de simplicidade exigiu muito trabalho, é nítido, sem contar a crítica social nele embutida de forma não tão sutil. A coisa é uma crescente que culmina em um tapa no leitor, um texto incrível.

    Nessa quinta tomarei uma gelada lembrando “que pra porra do mercado ser super tem que ter, pelo menos, cerveja
    gelada”.

    Um brinde à Murillo
    (0.0)_c|_|

  • Juliano Rossin
    setembro 25, 2014

    Se eu não estivesse com preguiça eu ia até a geladeira pra subir uma latinha pro congelador pra tomar mais tarde… quem sabe se a preguiça deixar né.

    Sobre o texto, achei legal a levada dele com a escrita bem informal, porém existem algumas outras palavras e verbos no meio do texto que poderiam entrar nessa dança também, pra ficar ainda mais próximo do que se escuta por aí. E percebi uma ou outra vírgula que deu uma enroscadinha no texto e podia nem estar ali, mas nada que faça tanta diferença.

    Vallew por compartilhar.

  • Elcio Hermenegildo Pereira Jun
    setembro 25, 2014

    Parece aqueles discursos que a gente ouve, sem querer, no ponto do ônibus e tenta não rir do ridículo da situação, que é, na verdade, um retrato da simplicidade do povo. Gostei da forma que foi escrito, com uma fluidez gostosa de ler, onde os erros gramaticais são propositais, para dar mais brilho à narrativa.

  • #Capitão
    setembro 25, 2014

    Rapaz, acho que, como disse o @Elcio Hermenegildo Pereira Jun:disqus é proposital. Esses erros, vírgulas, pontuações e tudo mais, foram lapidadas para deixar o texto mais verbal e dar o ritmo que ele possui.

  • Vinicius Machado
    setembro 25, 2014

    Começo difícil. Até engrenar demorou um pouco(eu que sou lento de repente.)
    Um relato interessante sobre a vida comum. Digo comum pois… como disse é comum encontrar esse tipo de pessoa.
    Gostei da narrativa, mas não do assunto. Parece uma crônica de um bêbado. Me incomodou…e pode até ter sido de proposito.
    Quanto a escrita(pontuação) precisa de alguns ajustes e ele, por ter massas de textos ficou um pouco pesado.

    Mas gostei. Té a próxima!

  • Murillo Magaroti
    setembro 25, 2014

    Tim tim, irmão. Valeu pela força aí.

    É muito bom ser colocado à prova por mais gente do que estou acostumado. O ruim é ficar relendo, achando que podia ter trabalhado melhor um ponto ou outro. Mas, no geral, curti ter escrito esse texto e é um prazer maior ainda saber que outras pessoas curtiram a leitura. Obrigado ao #Capitão e ao #Santo e vida longa ao Roda!

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    setembro 25, 2014

    Gostei do estilo da escrita. Para mim é bem difícil retratar textualmente a oralidade. A tendência é que saia tudo truncado, ou então formal demais. Mas neste conto, ao contrário, a fluidez é inegável. Curti! É verdade que, a meu ver, uma ou outra vírgula poderia ser retirada sem prejuízo do sentido do conto; aliás, isso talvez tornasse a leitura ainda mais ágil. Também cabe pensar se algumas alterações (como escrever “imam” em vez de imã) realmente cumpriram um papel em transparecer a linguagem oral, ou se seriam dispensáveis. Enfim, meros detalhes.

    Quanto ao conteúdo, confesso que o tema não é minha praia, mas, bem, isso varia conforme a preferência de cada um. Em compensação, gostei de certos momentos, como o trecho “Tava passando um filme de cachorro que fala na sessão da tarde” (eu ri!) e também quando o narrador começa a divagar sobre a morte do seu Elias (é bem o que costuma acontecer quando relatamos um evento no dia a dia: começamos a viajar na conversa, perdemos o foco e só depois retomamos o assunto).

    Um ótimo começo. :)

  • #Capitão
    setembro 25, 2014

    Sentimento que todos compartilhamos. Como #Santo sempre me diz, nunca se termina um texto, temos que abandonar. Nossos textos nunca ficam perfeito e acredite, isso é bom. Ruim seria se você achasse que não há evolução possível.

    Parabéns pelo texto, aguardo os próximos. =D
    .

  • Iara Gonçalves
    setembro 25, 2014

    Muito bom, eu que gosto de contos e crônicas com uma puxada mais poética adorei a forma com que foi escrito, fando ênfase a um vocabulário popular. E o desfecho foi ótimo. Parabéns.

  • Ellen Serra Braga Bugyi
    setembro 25, 2014

    Antes de saber que o escritor era paulista já imaginava a situação rolando por aqueles lados. Muito bom!

  • #Santo
    setembro 26, 2014

    Pois é @disqus_rILFf3sb8f:disqus.

    Esse aspecto das massas de texto chamou nossa atenção também. Mas como é um fluxo de consciência até dá pra perdoar.
    Mas de fato, incomoda um pouco o leitor. E já intimida de chegada.

  • #Santo
    setembro 26, 2014

    É isso ai, #Capitão. Texto não se termina, se abandona.
    A gente sempre acha que tem alguma coisa pra ser melhorada. E se passar um ano você ainda vai continuar encontrando coisa pra mexer.
    Ficamos felizes com o seu lançamento, @murillomagaroti:disqus!

    E esperamos que você faça parte desse time agora!

  • Gabriel Azevedo
    setembro 26, 2014

    A ideia é sensacional, a execução não deixa por menos. Adorei!!! Parabéns Murilo!!!

  • #Capitão
    setembro 26, 2014

    Engraçado, eu vejo como o inicio do Laranja Mecânica. A dificuldade é feita para você perceber que não está no mesmo mundo, que as realidades são opostas e por isso temos dificuldade de entender os questionamentos e razões do personagem.

  • Jones Gonçalves
    setembro 26, 2014

    Não!

  • Jones Gonçalves
    setembro 26, 2014

    Mesmo não sendo o meu estilo de leitura é um bom texto, como disse o Capitão tem uma critica social belezinha ali escondida, e tudo o mais, a estranhesa do ritimo corrido quase me fez desistir na metade, o que é em muito diferente da sensação de ler Laranja Mecânica, ao Capitão e seus sacrilegios!! kkkkk

  • #Santo
    setembro 26, 2014

    Concordo com o @jonesgonalves:disqus. Comparar ao Laranja Mecânica me parece meio distoante @rainiermorilla:disqus. Entendo onde tu quer chegar. A fórmula truncada serve justamente para nas primeiras linhas você já se dar conta que não está em um lugar comum.

    É como eu disse, incomoda, intimida, mas enquanto fluxo de consciência, é válido.

  • #Capitão
    setembro 26, 2014

    Não falo por mim, matei a Laranja em uma cacetada só. Entretanto todos os que eu pedi para ler se chocaram com a Ultraviolência, não aguentaram o Krovi escorrendo da Rot enquanto tomávamos Leite com Tudo Dentro. Laranja é HorroShow!

  • #Capitão
    setembro 26, 2014

    Como disse direto ao comentário do @jonesgonalves:disqus tanto Laranja quanto esse texto me foram deliciosos de ler, justamente por esse choque de realidade, ajustados com a linguagem. Essa é a única comparação, por favor deixemos Antonio Burguês em paz. Não quero nunca comparar esse texto à qualidade técnica e de enredo da Laranja.

  • Jones Gonçalves
    setembro 26, 2014

    Não Droog, não, nós tomavamos moloko, quando puz minhas rooks no livro pela primeira vez fiquei bezoomy com tamanha violencia, e as girias nadsat na qual o livro é escrito, foi muito estranho, porém você não consegue parar de ler, mesmo sendo violento e fora da cazinha.

  • Débora Assis
    setembro 26, 2014

    Legal retrata o cotidiano de muitas pessoas com uma pitada de humor… Muito irreverente e popular! Gostei!

  • Murillo Magaroti
    outubro 1, 2014

    Só por causa da enchente? rs

    Obrigado.

  • #Capitão
    outubro 1, 2014

    Paulista e enchente já não cola… Agora é seca… =/

  • Ellen Serra Braga Bugyi
    outubro 1, 2014

    Por causa do jeito de falar da personagem! Hehe

  • Wilton Bastos
    outubro 3, 2014

    O Murillo é tão maldito que até o escatológico cheira bem na prosa dele. Não só na prosa. Já li versos desse poeta que odeia o termo “poeta” que trazem toda essa crueza sonora e filhadaputamente reflexiva

  • Wilton Bastos
    outubro 3, 2014

    rebusquei o comentário só pra ele falar que não entendeu XD

  • Filipe Sena
    outubro 7, 2014

    A linguagem é o que mais chama atenção. A narrativa em si coloca o protagonista impresso em cada linha. Não só dá pra conhecer o cara, mas a forma como ele pensa e costuma agir, além de uma ou outra informação fornecida indiretamente (como o fato do cara estar em casa durante a semana bebendo cerveja, ou o cara tá sem emprego ou tem um daqueles trabalhos por escala q rendem umas folgas aleatórias). A forma como a esposa dele interage com ele também diz muita coisa. Resumindo: é um texto pra ler com óculos 3D

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