A Felicidade Registrada

Por sexta-feira, novembro 14, 2014 11 , , Permalink

Porque a felicidade passou por aqui e ninguém a viu.

Irene nunca a teve tão perto de si. Aquele instante fugaz, quase imperceptível. Rápido como um fio que passa quase sem cortar, que se perde quase sem se enrolar, que se desvanece de tão fino e frágil. A felicidade bateu-lhe à porta quando chovia torrencialmente. A chuva batia contra o telhado provocando aquela sensação de comodidade em demasia. A TV estava ligada na novela da tarde. Os olhos estavam divididos entre o casal que se beijava, e o bolo que quase queimava no forno. As ruas enchiam-se de poças de água.

Amo-te até o infinito, dizia o moço. Quero-te até não me conter mais, dizia a moça. E Irene sorria, em júbilo, como fosse ela beijando o seu moço, sentindo o calor do seu moço, porque havia em Irene um tom a mais de esperança. Quero sentir essa febre, dizia ela, quero sentir isso… E dizia isso com tanta convicção e ao mesmo tempo com tanta lógica que parecia ser um insulto do destino se ela não pudesse ter aquele isso que era o mínimo que lhe poderia ocorrer. O casal, no entanto, distanciava-se, tão frios e maquinais que pareciam ter deixado com Irene o que tivera sido um sentimento.

Mas Irene já não captava. Era como uma peça de roupa que não lhe servia depois de ter sido usada. Ficava satisfeita, e de repente aquele instante era agora meio insosso. O bolo estava pronto. E vê-lo avolumado e cheio de cor servia-lhe como um presente de conformidade por não poder ter algo a mais que aquilo. Sentia-se bem, sentia-se Irene. E aos poucos, os poucos instantes que outrora eram insossos, uniam-se e transformavam-se numa coisa volumosa como aquele bolo, tão cheio de vida e sabor que quase exagerava no açúcar: a felicidade à custa dos instantes. E aquilo era tão poderoso que aparentemente atraía outros ventos. Irene decidiu levar o pratinho de porcelana para a janela, e lá comer o bolo saboreando a paisagem molhada pela chuva. Ouvia de longe a TV transmitindo os comerciais, enquanto a chuva se transformava numa cálida garoa. Foi naquele dia, sentada no parapeito da janela com o prato nas mãos e os pensamentos no meio da chuva, que Irene viu o sujeito. A princípio pensou se tratar de um pedinte, mas até disso a cidade sofria de escassez.

Descendo com a mesma rapidez com que havia subido, ela deixou o prato na pia sem nem terminar de comer. Desligou a televisão – para que assim não tivesse que pagar outra conta altíssima no final do mês, sendo que morava sozinha –, abriu o portão de ferro de sua casa e pôs o rosto para fora.

Sentado sob a árvore, como a se proteger da chuva e do frio, ele comia o que parecia ser o último biscoito do pacote, mas com tanta avidez que jamais aquilo lhe seria o suficiente. Tinha uma mochila do lado, um boné na cabeça e estava de bermuda e camisa de manga comprida. A pergunta não lhe escapou: o que aquele moço estaria fazendo ali, naquela cidadezinha de ninguém? Como a resposta não lhe veio, coube a ela mesma tratar de descobrir.

Eu fotografo, dizia ele, sentado à mesa da cozinha. Tinha deixado a mochila sobre o sofá, e quando soube de um bolo que acabara de sair do forno e que o esperava na cozinha, Teodoro – nome estranho, pensou Irene – nem se deu conta de que deixava suas marcas no chão com aqueles sapatos sujos de lama. Comeu com tanta concentração que durante aquele tempo só tinha respondido aquilo, repetindo algumas vezes: eu fotografo.

Irene imaginou de que tipo de fotografia ele falava. No passado, ela mesma tentara comprar uma câmera digital no supermercado perto dali, mas tinha-se mostrado tão ruim tendo aquilo nas mãos que qual não foi a sua frustração quando percebeu que o seu maior desejo era o de ter uma câmera fotográfica dentro de si mesma. E mais: uma câmera que registrasse o que não se registrava. No entanto, recordava-se de sua mãe que lhe dizia: é mulher, mas com sonhos de menina. E era aquilo que ela gostaria de registrar com a sua câmera ainda não fabricada: o sorriso que se esboçava, a palavra lançada ao léu, os sonhos impossíveis que se idealizava, mas que não se chegava a vive-los – porque tendo-os registrado, era como guardar a imagem de alguém que de alguma forma vivera com ela.

Eu fotografo. A boca estava cheia. Bebeu o suco de laranja. E viajo por aí. Em seguida ele olhou ao redor de si, detendo-se numa estatueta ao lado da TV: no meio daquele ambiente singelo, São Miguel Arcanjo postava-se em todo o seu esplendor. Depois Teodoro olhou novamente para a mulher diante de si. Havia em Irene uma coragem que ninguém imaginaria. Com aqueles cabelos loiros dançando com a brisa do dia, havia em Irene uma mocidade ainda pueril, meio atrasada, mas que em nada influía sobre a sua personalidade.

Com a chegada do fotógrafo àquela pacata cidade, todo fim de tarde, depois da novela, Irene aprumava-se toda, perfumava-se e saía de casa como se estivesse indo encontrar a felicidade personificada. Avistava Teodoro de longe, com aquela coisa grande demais para as mãos dela, algo preto e que fazia sair a foto no mesmo instante, e ela sentia jubilosa satisfação em poder vê-lo registrando cada ato e cada segundo que se passava arrastadamente, o que não poderia ser diferente naquela cidadezinha de ninguém. Admirava-o tanto que ao perceber que ele tinha tirado todas as fotos que queria, ela corria até ele com a saia se balançando com o vento, sorria o seu melhor sorriso, e pedia: me fotografe. Pedia como uma menina que espera o dia todo pelo homem do algodão doce, e que ao encontra-lo corre até ele com a moeda de um real. E tão barato saía aquele momento que quando Irene se oferecia a pagar por todas as fotos tiradas – frente à uma árvore, sentada no banquinho da praça, fazendo seu bolo no fim da tarde, aguando as plantas no início da manhã… –, Teodoro respondia veementemente: jamais cobraria por isso.

E lá vinha o isso novamente sob o seu encalço. Lá vinha o isso que desta vez soava tão ilógico a ponto de fazê-la se perguntar se estava pedindo muito por algo tão pouco. Mas vê-lo a sorrir para ela como fazia naqueles momentos, aquilo dizia tudo. Não, ele não se importava. O que transparecia naqueles olhos escuros era uma admiração recíproca. Teodoro não a culparia porque nem ela mesma, em nenhum momento, permitiu-se à culpa. Ainda que se sentisse minimizada demais ao pedir que tirasse algumas fotos dela, ele sempre lhe lançaria um olhar de quem tudo compreende e tudo aceita, com a mesma facilidade com que ela compreendia e aceitava – mas com uma diferença gritante: sentia-se bem. Haveria limites para o sentir-se bem?, indagou-se Irene. Ou ele estaria sempre carregado de uma aceitação submissa? O que ela aceitava estava longe de ser a sua prisão. Uma mulher como Irene era livre pelo fato de permitir-se sentir cada instante que a compreensão da vida lhe proporcionava, o que era também uma aceitação. Compreendo quem sou e o que vivo, dizia ela todas as noites antes de dormir, e aceito viver. Por isso me fotografe, Teodoro, quero que registre esse momento em que me dou conta do quanto sou viva.

Durante todo aquele tempo que Teodoro ficou na cidade, ele fotografou Irene em todos os lugares, de todas as formas, e no final ela sempre o convidava para tomar um café com bolo e assistirem juntos a novela ou o jornal. Teodoro via o quão limpa era casa, e certa vez ele não se segurou: a senhora é casada? Odiou-se no mesmo instante pela pergunta. Mas com aquele mesmo sorriso fácil, ela disse: já encontrei a felicidade em muitas pessoas, mas ela é sempre assim: não fica quieta, está sempre num lugar diferente. E naquele dia ele a fotografou mais e mais.

 

Imagem por Nuno Dantas

11 Comments
  • Juliano Rossin
    novembro 14, 2014

    Parabéns, Ricardo, pela bela estória. Gostei da tua escrita e da fluidez que faz o texto passar rapidinho.
    Obrigado por compartilhar.

  • Ricardo Ruan
    novembro 15, 2014

    Obrigado pelo comentário, Juliano!

  • Kívia Florêncio
    novembro 16, 2014

    Fantástico! Meus parabéns Ricardo! Sua estória é envolvente, repleta de amor, calor, luz e principalmente saborosa, assim como bolo de Irene.
    Sou uma fotógrafa amadora, uma apaixonada por esta arte de registrar o viver, de modo que, sei perfeitamente o que Teodoro e Irene sentiram, nesta súbita relação, nesse convívio de cumplicidade e afeto; Realmente magnífico! Talvez eu seja uma Irene rsrsr… Parabéns!

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    novembro 16, 2014

    Muito bom! Bem escrito, e de um jeito difícil de emular. Diria que você encontrou um estilo que é realmente seu. Curti especialmente o diálogo sem travessão.
    Sei lá por que, mas o cenário me lembrou daqueles subúrbios norte-americanos (apesar de alguns detalhes serem claramente brasileiros).
    O clima é tranquilo durante todo o conto, mas não se trata de uma tranquilidade monótona e sim daquela tranquilidade plácida de quando tudo está bem e vai continuar bem. Gostei.
    Parabéns!

  • Iara Gonçalves
    novembro 19, 2014

    Muito bom, traz um encantamento e uma vontade de andar pelos mesmos lugares, conversar com os personagens, fazer parte da história. Teus conto flui leve e fácil, não há como se perder na narrativa. É uma viagem a um lugar bucólico que envolve a gente. Adorei

  • Fabricio Cunha
    novembro 20, 2014

    Adorei a leveza da beleza intensa de uma relação singela.

  • #Capitão
    novembro 25, 2014

    Muito bom. há uma leveza indescritivel neste texto. Uma inocência tão poderosa que contagia! Parabéns.

  • Ricardo Ruan
    novembro 26, 2014

    Magnífico o seu comentário! Muito obrigado!

  • Ricardo Ruan
    novembro 26, 2014

    Muito obrigado, Iara!

  • Luan B Almada
    janeiro 12, 2015

    Que bom perceber que a felicidade é tão simples. E que ela é feita de momentos. E que belo é usar a arte de fotografar apenas para captar a beleza da simplicidade de cada momento. Me emocionei com o texto.

  • #Santo
    março 12, 2015

    Antes tarde do que nunca!

    Eu gostei muito desse texto. Ele possui uma estética muito interessante, principalmente no foco narrativo e no desenrolar do enredo.

    Fez uma belíssimo trabalho aqui, @ricardo_ruan:disqus. Tá de parabéns!

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