O Jogo do Tempo

Por terça-feira, março 31, 2015 20 , , , Permalink

Você me visitava todas as terças-feiras, religiosamente às três da tarde, quando o sol estava a pino.

Eu odiava suas visitas, mas como eram as únicas que recebia, as esperava com angústia e ansiedade. Temia que, daquela vez, justo aquela, seria finalmente o dia em que você deixaria de vir. Para sempre.

Odiava como implorava à enfermeira para que me sentasse na cadeira de rodas e me empurrasse até o triste jardim. Até as plantas entendiam o quanto tudo aquilo era degradante, pois as poucas flores estavam murchas, secas como a pele do meu rosto enrugado.

Sempre precisava pedir para a estúpida enfermeira colocar uma cadeira à minha frente, para que você sentasse. “Ela quem?”, a tola perguntava.

“Minha visita, claro”, eu respondia; era algo óbvio, pelo amor de Deus. Era terça-feira! Aquelas meninas, todas, eram umas atrapalhadas. Deveria demiti-las uma a uma.

Geralmente as pestes riam, como se eu tivesse dito alguma coisa muito engraçada, mas a maioria acabava deixando a maldita cadeira. Não seria muito mais fácil se a largassem lá de uma vez, sem fazer perguntas inúteis?

Então eu me sentava e esperava. Cinco… dez minutos. O tempo: ele gosta de jogar conosco. É um velho maldito que caçoa de nós, segundo a segundo.

Quando desejamos que seja infinito, como num beijo de despedida, ele insiste em se apressar. Quando é necessário que passe depressa, arrasta-se feito um verme, teimoso demais para morrer.

Não gosto de admitir, mas sentia as batidas do meu coração fazendo contagem regressiva quando as três da tarde se aproximavam. Tum, tum. Tum, tum. Só faltavam cinco segundos.

Certamente seria aquele dia. Seria aquele que você não apareceria. Já podia até prever: apodreceria ali, sozinha, e morreria de tédio.

Tum, tum. Quatro segundos.

Achei ter visto uma sombra. Virei-me, mas meu pescoço doeu. Maldito corpo velho e imprestável.

Tum, tum. Três segundos.

Você não vai vir. Você me acha uma piada. Provavelmente deve estar rindo de mim agora mesmo.

Tum, tum. Dois.

Fiz papel de tonta. Logo eu, logo eu! Que humilhante!

Tum, tum. Um.

Preciso ir embora. Preciso, mas como? Não consigo!

Três horas da tarde. E lá está você, sentada na cadeira à minha frente, em seu impecável terninho branco, o mesmo que eu costumava usar, as pernas cruzadas, o olhar condescendente que tanto me irrita.

— Pare de me olhar dessa maneira! – eu digo, cheia de pose, mas basta um sorriso seu para me quebrar.

Você não diz nada. Nunca diz.

Maldita.

— Você está cuidando direito das coisas? – pergunto. Você aquiesce, como sempre, sem falar, e eu fico ainda mais irada. Deve estar tudo uma bagunça, tenho certeza. Você não cuida das coisas como eu. Ninguém consegue, além de mim.

Resmungo, desejando poder pular em seu pescoço tão liso, tão perfeito, enfeitado por aquele estúpido colar de pérolas, meu favorito. Você roubou! Você roubou!

— Não me diga que está sendo mole com todos eles!

Você dá de ombros, como quem diz “certo, então eu não digo, se é assim que quer”. Odeio seus joguinhos, sua ironia, seu jeito eficiente e mentiroso. Como ousa me imitar?

— Eles vão perceber o quanto eu faço falta! – elevo a voz, empinando o nariz. Espero que isso impressione você, mas sei, no fundo da minha alma carregada de dor, que não significa nada. – Virão me buscar e despejarão você num piscar de olhos!

Ah, aquele olhar. Há pena neles. E dor. Culpa, arrependimento. Odeio, odeio seu olhar! Não preciso de pena, muito menos da sua, não preciso de nada.

O que preciso é sair daqui.

— Me tira daqui – ordeno, usando meu melhor tom de comando. – Me tira daqui.

Sua feição agora é impassível. Você descruza as pernas, apoia as mãos nas coxas e me encara, olho no olho, nariz com nariz, desafiadora. Há uma verruga horrível no canto do seu olho esquerdo. Você fica horrorosa com ela.

— ME TIRA DAQUI!

Ah, não. Uma das estúpidas enfermeiras vem correndo “me ajudar”, como elas gostam de dizer. Não, não, não quero ir. Xingo, esperneio e grito, a cadeira gira e não consigo ver você, mas sei que está rindo por dentro.

Você conseguiu o que queria.

Minha tortura.

Mesmo assim, mesmo prometendo a mim mesma que na próxima terça não vou esperá-la, os dias passam tão devagar e me sinto tão sozinha que, na semana seguinte, lá estou eu, no mesmo jardim deprimente, em frente a uma cadeira igualmente triste e vazia.

Conto os segundos.

Cinco… quatro… três…

É hoje. É hoje.

Dois…

Um…

Um.

Meu coração perde um compasso. Olho ao redor. Você não está aqui. A cadeira está vazia. Vazia.

Por Deus… você não veio. Você finalmente não veio.

Estou tão atordoada que não consigo acreditar.

Você me abandonou.

Sinto-me à deriva, afundando. De repente tudo perde o sentido. Eles não precisam de mim. Você não precisa de mim.

Eu sou nada.

Encosto a cabeça, fecho os olhos e choro. Há somente o silêncio.

Silêncio…

— Vou sentir falta dela – diz a enfermeira mais jovem.

— Ela era uma vaca sem sentimentos – responde a outra, mais velha. – Vivia nos xingando dos piores nomes. Ah, e era uma maluca. Toda terça-feira nos fazia arrastá-la até o jardim, para ficar por um tempão de frente a uma cadeira vazia. Dizia que era sua “visita”.

A mais jovem deu de ombros.

— Talvez ela fosse apenas atormentada, coitada.

— Ela nos atormentava, isso sim – resmunga a outra, deixando o quarto para buscar qualquer coisa no banheiro.

A jovem acaricia o rosto da mulher morta. Há uma verruga ao lado do seu olho esquerdo, que algumas enfermeiras diziam ser a prova de que a velhinha era uma bruxa, afinal. Mas a moça se pega pensando que o pequeno defeito apenas a tornava mais humana.

 

Terê Alves

(Karen Alvares)

site bottom

20 Comments
  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    abril 1, 2015

    Em tempo: digo que essas duas mulheres (ou será apenas uma?) travam um debate melhor do que os de Sméagol e Gollum nos filmes d’O Senhor dos Anéis. :P
    Parabéns, Karen! :DD

  • Marnei Cardoso
    abril 4, 2015

    Muito bom, gostei muito da intensidade da narrativa, transmite uma impaciência, ansiedade. Gosto de textos assim, parabéns!

    Abraço.

    PS: Só achei muito previsível que a cadeira estaria vazia e que era ela mesma.

  • Mariah Alcantara
    abril 8, 2015

    O que posso dizer? só perfeito!

  • Vinicius Machado
    abril 8, 2015

    Primeiramente: Parabéns!
    Muito merecido o prêmio.

    A escrita para mim está impecável. Narrativa envolvente! Rápida, concisa quase compassada. Gostei mesmo.

    Quanto ao enredo da história, acho que o final deixou a desejar. Ao decorrer do texto você vai deixando cada vez mais claro que a senhora esta recebendo uma visita imaginária. A vida, o tempo, não importa.
    Mas quando tu esclarece no final… parece que está dizendo: Não entendeu ainda! Toma aqui mastigado.
    Acredito que se apenas essa parte fosse mudada para deixar algo, de repente, até mais interpretativo seria um texto ainda mais ímpar.

    Mas como sempre digo nos meus comentários: é só minha opinião.

  • Karen Alvares
    abril 8, 2015

    Hahahahaha, sério? rs My preciouussssss!!!
    Valeu, Rodrigo! Tem você nesse conto, oras, você revisou também! :)

  • Karen Alvares
    abril 8, 2015

    Muito obrigada, Marnei! :)

  • Karen Alvares
    abril 8, 2015

    O que posso dizer, você é uma querida, Mariah! <3
    E como eu disse pro Rodrigo, tem dedo seu nesse conto!

  • Karen Alvares
    abril 8, 2015

    Muito obrigada, Vinicius! :) E obrigada pelas observações, levarei em conta nos meus próximos escritos. Sempre bom aprender todos os dias aqui na Roda!

  • Claudia Dugim
    abril 10, 2015

    Senti saudades do meu pai, uma pessoa muito “desagradável” que ficou internada por dez anos. Ia visitá-lo toda a semana, ele brigava com todo mundo, mas era uma boa lição olhar para ele e aprender que o futuro nem sempre é o que sonhamos ou merecemos.

  • Samir Ramos
    abril 11, 2015

    A famosa coda. Seria boa assim.

  • Samir Ramos
    abril 11, 2015

    Belo conto!

  • Jefferson Nóbrega
    abril 15, 2015

    Chegando agora na Roda e esse é o primeiro conto que leio. Gostei bastante, a trama me envolveu, pude senti a impaciência da personagem, apesar que, também achei o último parágrafo desnecessário, muitas vezes é melhor que nossas imaginações construam seu próprio final.

    Abraço.

  • Happy
    maio 13, 2016

    ahh :pulls down hat over head so Isabel doesn’t see my hair: =/ lol That’s creepy though, the first pic i mean, having all your friends sport the same hatsliyre you do.

  • car insurance quotes
    maio 20, 2016

    Stanta 1:55 “Don’t give me that he was a heterosexual just because he is married and has children..”So, I’m trying to understand for a policy perspective how we go about finding pedaphiles. It sounds like we look for men who have wives and children. Men who publically self identify as homosexual are not a threat?

  • http://www.thpro8.com/
    julho 8, 2016

    Wahoo on 119 minutes of sweaty exercise this week!You go girl on learning how to swim! It takes endurance and perseverance but I know you have both! Rock On!!Tonya recently posted..

  • http://www.oweninsuragency.com/
    julho 15, 2016

    Olha, Marili. So vejo uma ligação se for miojo com rã. Explico porque: no meu exclusivo modo de ver, a Madona como cantora e nada é a mesma coisa e como mulher, não passa de um corpo de rã com cara de artista dos anos 30 e cabelo indescritível. Portanto o miojo, no prato ou no pacotinho é muito feio e com uma ranzinha dentro… vira a Madona. Talvez os “cara” do marquetim tenho enxergado isto também.

  • http://www.envyoftheworld.com/
    julho 27, 2016

    Whoa! This may be one particular of the beneficial blogs and forums We have ever are available through using this idea. Primarily Excellent. My business is another medical specialist in this particular content well, i can fully grasp your energy.

  • privatkredit zinsen
    dezembro 6, 2016

    Yo, that’s what’s up truthfully.

  • autoversicherung jährliche kündigung
    fevereiro 2, 2017

    …. [Trackback]…….[…]Hello I discovered your weblog web site planet-huge-world-wide-web website web site inside of the world wide web and look some within just your early posts. Proceed to keep up inside the excellent operate. I just now further enhance your Rss to my…

  • http://www.libertyhallinnsc.com/
    fevereiro 17, 2017

    non c'è molto da dire…semplicemente sappiamo di non potercela da fare da soli e quindi cerchiamo aiuto. Abbiamo terribilmente bisogno degli altri, anche se siamo lupi solitari. E quando neppure più gli altri bastano allora arriva Dio…ma questo è un discorso a parte e non possiamo monopolizzare il Blog. Felice è una persona paziente, ma non mi sembra il caso di approfittrane troppo. Aggiungo solo una cosa… sembrerebbe che la sofferenza spossa essere una panacea per l'uomo. Dà il meglio di se quando soffre

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado