Cabelos Escuros, Sorrisos e Saudades

Uma tempestade de neve vinha anunciando a chegada do inverno havia dois dias. Lá fora, as rajadas de vento faziam os flocos de neve rodopiarem sob a luz do poste, antes de desaparecer naquela imensidão branca, enquanto montes de neve cobriam as ruas.

Quem olhasse de fora para a janela da velha casa de pedra e madeira, poderia enxergar a tênue luz amarela vinda de uma lareira. Lá dentro, um velho homem segurava um atiçador de brasa na sua mão enrugada e trêmula o mais forte que podia, tentando bater com a ponta de aço em um pedaço grande de lenha que já se tornara brasa ardente. Depois de algumas tentativas, o velho homem consegue quebrar a lenha em alguns pedaços menores, fazendo voar centelhas brilhantes pela lareira e pela sala, antes de se apagarem. O calor do fogo beijava suavemente o rosto de Daniel Neumann, enquanto o brilho intenso das brasas faziam com que cerrasse os olhos, enrugando ainda mais a sua pele fina e ressecada.

Daniel largou o atiçador de brasas ao lado da lareira e voltou a sentar em sua velha e confortável poltrona de couro marrom, com encosto alto e rebites de latão, dourados. Por um instante, ele ficou apenas parado, como se estivesse apreciando a claridade acolhedora proveniente da lareira, no entanto, seus pensamentos estavam muito além daquele lugar. Ajeitou-se na poltrona e retirou de um dos bolsos do casaco um pingente antigo de ouro com detalhes florais nas bordas e a estrela de Davi no centro. Ao abrir o pingente contemplou a foto em tons de cinza de uma moça bela e sorridente.

Por um momento Daniel ficou apenas olhando a foto enquanto seus olhos castanhos claros se enchiam de lágrimas.

Ele não precisava colocar seus óculos para ver a imagem da moça, pois já estava gravada em sua memória. Olhava o pingente apenas como uma relíquia de um tempo que há muito já passara.
Era o início da primavera de 1941 na sua cidade, Breslávia no interior da Polônia. Daniel tinha completado 17 anos há poucos meses e estava muito feliz. Saíra rapidamente de casa e correra para atravessar a rua até a praça e caminhar mais algumas quadras até o pequeno jornal local onde começaria no seu primeiro dia de trabalho como ajudante, para tirar as folhas da máquina e montar os jornais. Desviou de algumas pessoas e continuou pela calçada.

Estava tão ansioso que deixara cair alguns papéis que estava levando, quase nos pés de uma moça que passava.

Abaixou-se para juntar os papéis e percebeu que a moça havia parado para lhe ajudar, olhou rapidamente para ela e agradeceu, voltando a juntar as folhas. Neste momento Daniel parou repentinamente, olhou novamente para a bela moça e sem dizer nada, começou a reparar em cada detalhe de seu rosto, os olhos verdes claros, os cabelos escuros presos em um coque e o sorriso em seus lábios. Não lembra quanto tempo ficou olhando-a, até ela lhe entregar os papéis que havia juntado e levantar-se. Daniel continuou ali parado, até perceber a situação e levantar-se também.

Agradeceu desajeitado enquanto a moça lhe olhava sorrindo, virando-se e continuando o seu caminho.

Depois de algum tempo, Daniel retomou a consciência e começou a correr novamente até o seu trabalho. No final do dia enquanto voltava para casa, passou pelo mesmo local onde havia encontrado a moça na esperança de vê-la novamente. Porém não a viu mais. Passava todos os dias por ali e ficava o tempo todo lembrando daquele sorriso e pensando no que poderia ter dito para ela. Imaginou tantas conversas que tiveram que já sabia tudo sobre ela, do que ela gostava, dos passeios que fizeram e das risadas sobre os mais variados assuntos. Ela sempre ria das coisas que ele lhe falava e depois o beijava suavemente.

Aquele ano estava sendo difícil para todos da cidade, com a ameaça de invasão nazista sendo divulgada no jornal onde trabalhava. Daniel lia as notícias e achava melhor pensar que eles nunca chegariam ali na sua cidade.

Naquela tarde, enquanto voltava para casa, caminhava devagar lendo as notícias sobre a invasão nazista. Algumas cidades vizinhas haviam sido invadidas e as pessoas haviam sido retiradas de suas casas. Quando tirou os olhos do jornal para olhar o caminho, Daniel viu a moça caminhando perto dele. Ela estava linda em um vestido cinza claro, com o corte do casaco acompanhando a sua cintura fina e cobrindo a saia que ia até os seus joelhos, parecendo um terno. O sapato preto de salto baixo combinava com sua bolsa. O cabelo estava preso sobre a cabeça, em um coque, tornando o visual dela tão elegante que Daniel hesitou em ir até ela. Parou durante um segundo, pensando se deveria falar com ela e decidiu correr para alcançá-la. Afinal, eles já se conheciam. Ele sabia tudo sobre ela, e ela sobre ele, não teria problemas. A única coisa que Daniel não sabia era o nome da moça. Pensara em qual poderia ser, gostava de Ana, de Bela e de Daniela para combinar com o seu nome. Gostava de tudo nela, todas as coisas que ela já havia lhe contado. E se não fosse nada daquilo? E se ela já fosse casada? Pensou algumas vezes.

Daniel lembrava de quase tudo daquela época, mas não lembrava o que dissera quando a alcançou. Lembra apenas que conversaram durante alguns minutos e durante todo o tempo ela sorria, bem do jeito que ele a imaginava todos os dias.

Leila, o nome dela era Leila Rosenberg. Morava no outro lado da pequena cidade e trabalhava em um escritório ali no centro da cidade, há apenas algumas quadras do jornal onde Daniel trabalhava. Ela tinha 18 anos e não era casada. Foi um grande alívio para Daniel, que abriu um enorme sorriso. Por fim combinaram de se encontrar para tomar um café e conversar mais.

Daniel fazia planos e em pouco tempo havia pedido Leila em casamento. Para a sua surpresa e alegria, ela aceitou.

Então depois de pouco mais de seis meses, eles se casaram e alugaram um pequeno apartamento ali perto do centro, bem próximo de onde trabalhavam.

A cerimônia foi simples e com poucos convidados. Havia um clima de medo na cidade, devido às notícias de uma possível invasão nazista.

A sua primeira noite de casados foi bem simples. Passaram na frente da lareira. Daniel havia sonhado tanto com ela que era difícil acreditar que agora era sua esposa e estava ali, bem nos seus braços, toda sua. Olhava para Leila, seus lindos olhos verdes riscados de ouro brilhavam ainda mais lindos com a luz tênue da lareira. Fizeram amor ali, com o calor das brasas abraçando o casal enquanto a neve caía no lado de fora, com fortes rajadas de vento.

Apesar de Daniel ter fantasiado tantas histórias com Leila antes de falar com ela, muitas se tornaram verdade, como os seus planos de terem muitos filhos, suas carreiras e sua vida. Sonhavam em envelhecer juntos e viajar.

O velho Daniel levantou-se novamente de sua poltrona de couro, jogou mais alguns pedaços de lenha na lareira e com dificuldade revirou as brasas novamente. Caminhou devagar até a janela e parou um tempo ali, observando a neve dançar sob a luz do poste na rua em frente a sua casa. Depois de alguns minutos, as lembranças do inverno de 1942 lhe invadiram a memória.

Daniel estava com o jornal na mão e correu até o apartamento para mostrar a notícia para Leila. As notícias não eram nada boas, mostrando mais cidades vizinhas que foram invadidas. Leila sugeriu que fugissem dali, mas não conseguiam pensar para onde poderiam ir, a Europa estava em guerra, as cidades vizinhas estavam sendo invadidas e os nazistas avançavam mais e mais. Decidiram ir até a casa dos pais de Daniel que era mais próximo de onde estavam no centro. Ao chegar lá, seus pais estavam arrumando malas para sair da cidade, com o medo tomando conta de todos. Não demorou muito e começaram a ouvir o som de aviões sobrevoando a cidade, barulho de pessoas nas ruas, correndo e gritando. Alguns minutos depois o som de caminhões parecia muito perto. Ao espiar pela fresta da janela, confirmaram seus temores: os nazistas estavam na cidade, na sua rua e logo estariam ali, na sua porta.

Pensaram em se esconder, então correram, no momento em que a casa foi invadida. Daniel não consegue lembrar o que aconteceu depois, lembra de gritos e de ter apanhado até desmaiar. Lembra de estar num vagão de trem por horas com tanta gente que mal podiam respirar, com cheiro de urina, fezes, vômito e sangue, até chegarem ao seu destino, uma fortaleza cercada por tela, grades e arame farpado, tudo coberto de muita neve, que insistia em cair sem parar.

Durante muito tempo Daniel não tivera notícias de Leila. Havia se passado mais de um ano, porque o inverno passou, chegou e novamente estava acabando, apesar de ainda nevar e fazer frio.

Naquela manhã enquanto trabalhava consertando a cerca, viram uma fila que se formava para chegar a uma porta estreita de um galpão. Eram todas mulheres, nuas, cadavéricas. No meio de todas as mulheres, reconheceu a sua

Leila, ou o que havia sobrado daquela linda mulher, cheia de vida, alegre e sempre sorridente. Quase não conseguia ficar em pé e nem caminhar, tendo que ser empurrada pela fila juntamente com outras dezenas de mulheres. O rosto estava tão magro que apenas os ossos apareciam e seus olhos eram muito fundos, escuros e sem vida. Pensar nela lhe trazia tantas lembranças boas que não conseguia evitar as lágrimas de saudade.

Apesar de ter sobrevivido ao campo de concentração, continuado sua vida e se casado novamente, Daniel Neumann nunca esquecera de Leila e a saudade o abraçava todos os dias, ainda mais agora que já estava bem velho e lembrava mais do passado do que do presente. Sempre lembrava dela sorrindo e girando com os braços abertos e do dia em que se conheceram. No entanto junto com aquela imagem sempre vinha a próxima lembrança, a de Leila caminhando em direção da morte. Ficou olhando para ela o tempo que pode, antes de ter que voltar ao trabalho.

Depois de alguns minutos que Leila havia entrado, a fumaça cinza da chaminé confirmava que nunca mais a veria. Apertou o pingente com a foto dela contra o peito pela última vez e chorou até dormir, desta vez, para sempre.

 

 

***

 

Daniel Neumann (1924-2008).
Leila Rosenberg Neumann (1923-1943).

 

 

 

Imagem por Gala Medina

5 Comments
  • Juliano Rossin
    abril 30, 2015

    É baseada em uma história real? Assuntos de guerra são sempre pesados e em sua maioria tristes também.

    Sobre a escrita tenha cuidado com o tempo verbal. E fiquei com duas dúvidas, se mulheres já podiam trabalhar naquela época e se já haviam apartamentos. Não entendo de história, desculpe se eu estiver errado.

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    maio 3, 2015

    Nossa, muito bom!!! A carga emocional foi bem trabalhada, e o nazismo como pano de fundo deixou a história mais sombria, mas num bom sentido. A descrição da primeira cena foi particularmente bonita, do ponto de vista visual mesmo.
    Concordo com o Juliano: vale rever o tempo verbal usado em certos momentos. Também achei que algumas cenas foram rápidas demais, mas, tendo em conta o limite de palavras, não vejo como poderia ter sido diferente. Um último detalhe: os nomes dos personagens (Daniel e Leila) estão de acordo com a origem deles? Não faço ideia, por isso perguntei.
    Parabéns pelo conto! :)

  • Marnei Cardoso
    maio 3, 2015

    A história é fictícia, somente usei o tema como fundo.

    Fiz algumas pesquisas para a escrita deste conto para deixá-lo condizente com a realidade. Encontrei várias referências sobre as mulheres trabalhando em vários países, produzindo armas, nos hospitais etc.

    Sobre os apartamentos, há prédios com poucos andares na cidade. Pela arquitetura, parecem ser do final do século 19 ou início do século 20.

    Muito obrigado pelos comentários Juliano!

  • Marnei Cardoso
    maio 3, 2015

    Como disse para o Juliano, fiz algumas pesquisas para a escrita deste conto para deixá-lo condizente com a realidade. Entre elas, sobre os nomes. Daniel Neumann e Leila Rosenberg são nomes judeus e significam:

    Daniel (Deus é meu juiz) Neumann (homem novo, recém chegado).
    Leila (cabelos escuros) Rosenberg (montanha de rosas).

    As cenas foram rápidas em certas partes exatamente pela limitação de tamanho. Peço desculpas se não ficaram muito boas.

    Não entendi a dica do tempo verbal. Se puderem me explicar eu agradeço.

    Muito obrigado pelos comentários Rodrigo!

  • Rodrigo Cerveira Cittadino
    maio 3, 2015

    Sobre a questão do tempo verbal, não é nada grave, nada que prejudique a compreensão do enredo, mas me incomodou em certos momentos. Por exemplo, no segundo parágrafo vc usa o Presente (“Depois de algumas tentativas, o velho homem consegue quebrar…”), enquanto todo o restante da cena é descrito no passado. Em outras ocasiões, fico pensando se não seria mais adequado usar o Pretérito Perfeito em vez do Mais-Que-Perfeito (como em “Estava tão ansioso que deixara cair…”). Enfim, são detalhes desse tipo.

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