A Peça Mais Cara do Mercado

Por quinta-feira, abril 23, 2015 1 , , Permalink

Alguém encontrou uma autoestima por aí sem alegoria?

Acabei de perder a minha. E não sei se foi na diretoria, na cafeteria, na padaria, na cutelaria ou na alfaiataria.
Mas ela é a peça mais cara do mercado e eu já não possuo mais as minhas riquezas de prataria.

Quem me sabotaria?

Será que eu responderia?

Que eu mesma me faria?

Quando a conquistei, estava no auge dos meus negócios. Vendia sorrisos a preço de banana, e os vendia à massa.

Vendia-os em altas quantidades. Nada, nunca, me faltava e minha produção não pararia.

Minhas células operárias trabalhavam nas mesmas vibração e sintonia. O máximo que acontecia era um dia de folga para curar a ressaca de fortes gargalhadas que distribuía de graça às pessoas com alegria.

E assim rodava o mundo e distribuía meu produto em praias, cachoeiras, baladas e em festas de família em demasia.

Nenhum demoraria. Os sorrisos eram alegres, coloridos, cor de rosa e tinha até palhaçaria. Eram terapêuticos para os estressados, remédio para melancolia e quem os comprasse não se lamentaria.

Contagiava quem os via.

Ganhava quem junto ria.

Fazia jus a um belo dia.

E assim montei meu império e dei a ele o nome de felicidade. Nomeei como presidente a autoestima, a peça mais cara do mercado e que muito me agradaria.

Daí, eu conheci um belo empreendedor e fomos à sorveteria.

Ele tinha sorriso de ouro e diamante no olhar. Era rico de sonhos, tinha beijos estalados e com abraços amassados me apertaria.

Quem disse que não me apaixonaria?

Ele me prometeu um mundo com flores e bombons. E que não me magoaria. Ele levou meu coração e me mostrou o amor.

Disse-me que desabrocharia. Assinei o contrato de olhos vendados porque dele eu não duvidaria. Dividi com ele minha fábrica de sorrisos e demiti a minha sabedoria.

Enfrentei vulcões e furacões e afirmei que dele não me separaria. Um dia levantei na madrugada, apalpei toda a cama e ele não estava mais. Mandou embora a alegria e mostrou sua soberania.

Ele fechou minha fábrica de sorrisos, pois dizia que a todos eu conquistaria. Queria-me só para ele e que para ninguém mais me emprestaria. Nem família. Nem amigos. Nem para mim. Nem para o espelho. Nem para a academia.

Eu apenas ouvia nãos, promessas não cumpridas, e a lágrima em meu rosto escorria. Ele saia e me trancava numa casa sem janelas, sem céu azul, sem mar claro, sem ver o sol, sem respirar a luz, sem visitar a lua e mal sabia ele que assim me sufocaria.

Às estrelas eu nunca chegaria.

Duras palavras ele me dizia. Com muita rudez me tratava. Aos amigos me escondia. Assumiu que de mim tinha vergonha, porque certa idade eu já tinha e mesmo assim, muito sorria. Acusou-me de tantas traições e, sem piedade, me tratava com muita grosseria. Dizia coisas pesadas, me acusava de inverdades e isso me ofenderia.

Daí, eu me lembrei do meu braço direito, da peça mais cara do mercado, de tão preciosa benfeitoria.

Daquela prisão ela me livraria.

À minha rotina de volta ela traria.

Mas ele era esperto e sabia que a peça mais cara do mercado não podia ser vendida, comprada, substituída, recuperada e não era de alvenaria.

Não sei onde ele a aprisionou, mas onde a chave ele esconderia?

Até que chorei, chorei e chorei. Gritei, gritei e gritei. Desesperei, desesperei e desesperei levando a falência a minha fábrica de sorrisos. Paguei uma cara indenização aos meus funcionários. Ao poço me atiraria.

Enfim, eu recebi uma boa notícia. Com uma corda me reergueria. Minha autoestima fugiu da prisão e num abismo o infiel homem se jogaria.

Mas eu não sei onde está minha doce, meiga e tenra autoestima.

Aceito-a de volta mesmo sem bravaria.

Sem idolatria.

Sem rouparia.

Nua eu a desejaria.

Jamais a descartaria.

Bem eu a queria.

Saudades eu sentia.

Falta me fazia.

E a minha bela fábrica de sorriso eu reabriria.

Autoestima é a peça mais cara do mercado, quem a tem que a valorize, e a segure com unhas e dentes. Que não a solte, não se esqueça dela e que muito a aproveite. Estou na miséria e sei que a culpa é toda minha. E mesmo assim não perco a esperança de conquistar de volta a minha autoestima, a peça mais cara do mercado e que das minhas garras jamais… Novamente me escaparia.

 

 

 

Imagem por Mark Spearman

1 Comment
  • Juliano Rossin
    abril 30, 2015

    Adorável texto, bem poético, porém ao tentar manter as rimas alguns verbos ficaram com significado errado.

    E concordo, a autoestima é algo de muito valor. Parabéns pelo texto!

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