O colar de tecido

Por segunda-feira, maio 4, 2015 2 , , Permalink

Essa história de morar em cidade grande estava ficando cada vez mais complicada. O fato de morar em uma e trabalhar em outra, vizinha e maior ainda, só deixava tudo mais cansativo. Tinha a impressão de que tudo se tratava mesmo de um grande xeque-mate, então, deixa pra lá, melhor se resignar e treinar respiração, paciência e tolerância. Aliás, o trânsito cada vez mais caótico lhe garantia treinamento adequado para essa quase beatificação do ser.

Até que não foi tão mal, sua bexiga ter-lhe acordado uma hora antes e ter criado coragem para não ser novamente abraçada pela cama. Banho tomado, modelito de escritório, filha na escola, seu check-list estava quase completo e ainda lhe restava um saldo positivo no seu fator tempo.

Faltava a maquiagem. Não era mais possível ficar sem ela, ainda mais agora que estava curtindo sua fase de autoestima elevada. Às vezes se perguntava como tinha conseguido conviver com aquela imagem que as fotos registraram no período pré-separação. Hoje era outra pessoa! Mais cansada, sem dúvidas! Mas mais autêntica, resolvida e feliz. Mas, a maquiagem… Ah! A maquiagem era absolutamente essencial. Indubitavelmente era o melhor disfarce que descobrira recentemente. Um toque de base e pronto! A maior parte das marcas conquistadas em seus quase 40 anos era cimentada. Em segundos, num traço de delineador, pumba! O olho desinchava, e o batom dava mais graça ao sorriso que conquistara. Era alegre! Pelo menos isso era de verdade. Aprendera, depois de alguns anos de terapia, que a alegria deveria ser algo sustentável, apesar das supostas dores. A alegria era sim um valor legitimamente conquistado e intrínseco à sua personalidade.

O problema da maquiagem é que ela derretia no calor do tráfego, então, havia aprendido que a melhor hora para a conclusão desse item de seu check-list diário era ao chegar no estacionamento onde deixava o carro para pegar o metrô. Até lá, o rádio a faria companhia.

Se bem que, olhando com cuidado, o espelho do quebra-sol indicava que, talvez, aquela uma hora perdida de sono tivesse deixado seu rosto mais roliço e suas olheiras mais acentuadas. Hummm. Nada bom! Teria que confiar no milagre das cores e esperar para ver, mas o estacionamento estava bem próximo. Talvez fosse bastante um capricho na base e no blush.

Pronto! Carro estacionado, pincéis nas mãos e cinco minutos depois, a imagem refletida pelo tal quebra-sol era outra. Ufa! Ainda bem! Abençoada maquiagem. Sim. Gostava do que via. Tinha tempo, uma selfie viria a calhar. Para ser bem justa, esse era outro item que descobrira essencial, a intimidade com o espelho e com seu melhor ângulo para as fotos. Chega! Bora! Tinha que ir. Ainda faltava o metrô.

A estação era integrada à uma das maiores rodoviárias da cidade e, naquela parte de seu caminho, passava por quiosques que faziam vezes de lanchonetes populares e o movimento era grande.

A distração não era algo possível naquele pedaço de seu trajeto e por isto foi fácil perceber que, em seu encontro, na direção oposta à sua, vinha “uma moça”, dessas completamente marginalizadas e de aparência reveladora. Como já estava acostumada com a diversidade de perfis daquela área não se assustou, nem alterou o seu ritmo. Não era novidade.

A novidade foi se identificar objeto da espirituosidade da tal “moça”, assim que a mesma registrou a sua presença. A “moça”, com uma peruagem até carinhosa, gritou:

– Nuossa, gentemm! Olha o colar dela, que tudooo! Diferente, né? É de tecido! Olha! Só poder!

Nossa protagonista, com sua alegria peculiar, recebeu a exposição com certa felicidade. Gostava de ser notada. Gostava de elogios. Gostava de respeito. E não via onde aquela manifestação, apesar de nada discreta, pudesse ferir seus valores. Apesar disso, talvez pela surpresa, talvez pelos movimentos automáticos que sua rotina lhe inferia, talvez por suas limitações pessoais, continuou seu caminho. Não houve alteração de velocidade de seus passos. Não houve uma troca de olhar de agradecimento ou simpatia. E, apesar disso, foi tomada, na mesma hora, por uma vontade incontrolável de dar seu colar àquela “moça”.

Seguia o fluxo da multidão, embora seu pensamento insistisse em fugir completamente do que era habitual. Encontrava-se imersa naquela sobreposição de ideias caraterística dos pensamentos… aquele que sobrepõe ideias: “Mas… Loucura! Segue! Imagina dar o seu colar! Vai, continua! Só pode ser loucura! Mas eu nem gosto tanto dele assim… Mas sempre que eu uso ele chama atenção! É de tecido! Mas… vou dar a ela? Quantos roubos deve ter nas costas? Quantas mortes? Mas engraçado… parece que ela merece o colar até mais do que eu… Ela viu o colar! E as roupas? Apesar de tudo tem um caimento perfeito… o que ela faria se pudesse ter uma chance? O que ela faria com o colar? Venderia? Trocaria? Mataria? Ela me viu! Preciso de maquiagem pra me sentir bonita… Ela anda na rua com o cabelo modelado por pó, roupas rasgadas, sujas e se sente bonita apesar de suas dores e cicatrizes e julgamentos… precisei de terapia pra sustentar minha alegria e ela descobriu o segredo provavelmente em calçadas e presídios… quem vai julgá-la? Ela merece o colar.”

Se viu na catraca. Voltou.

A catraca ficava no segundo andar da estação. Estava resolvida, iria até o mural do primeiro andar da estação. Dali teria visão para a calçada, no exato ponto onde vira aquela moça. Se ela ainda estivesse lá, iria fazer de tudo para chamar a sua atenção, se conseguisse, ela daria o colar.

Do mural pode ver aquela personagem. Ela se admirava no espelho do caixa de um dos quiosques. Mudava as poses, os ângulos e se admirava. Mexia no cacho do cabelo, como se fosse cristal, e se admirava. Se achava bela e fazia de sua beleza seu escudo e quem nesse mundo teria coragem de destruir provavelmente a única coisa bela que restara àquele ser? Tinha a convicção de ser uma mulher. Uma bela mulher. Sim. Era assim que ela deveria ser tratada, como mulher, uma mulher que usa suas armas para sobreviver, que usa como pode sua beleza, seus atrativos, que os usa inclusive como refúgio. Afinal, ultimamente, quantas vezes nossa protagonista olhou-se no espelho, pensou em todos os obstáculos que teria que enfrentar e pensou: “hoje só me resta ser bonita, porque de resto… tô fudida!”.

E, durante aquela observação distante, a empatia explodiu. Sentia como se subitamente tivesse super-poderes. Ela tinha o colar do poder e sentia-se capaz de dar a oportunidade a um coração aflito de viver um momento de felicidade despreocupada naquela vida sem gratas surpresas.

A altura de um andar de distância entre aquelas duas mulheres a separavam, mas isso não parecia obstáculo. Dali mesmo, e a despeito da multidão, a então dona do colar gritou:

– Ei! Moça! Moçaaa!.

A outra não olhou, mas conseguiu chamar a atenção de um homem que estava por ali e pediu, então, a gentileza de que ele chamasse aquela mulher e, quando ela finalmente olhou, agitou o braço e gritou:

– Ai! Eu! Eu!

– O colar! Quer? Pega! É seu!

– Ai, que tudo!!! Joga pra mim, minha linda, joga o colar!

– Cuida dele, hein!

– Sim, meu amor, vou cuidar!

E o colar voou para as mãos dela.

– Genteemmmm! Ganhei o colaaarrrr!!! Obrigada, minha linda! Ameeiiii!

E fez da calçada um lindo salão de baile com seus rodopios extravagantes e autênticos.

Sim. Era isso. Isso era um autêntico episódio feliz. Tomara a decisão correta. Aquele colar havia encontrado sua legítima dona. Sorriu. Agora estava livre, agora podia ir trabalhar, já devia até estar atrasada, só pra variar. E foi. Seguiu seu caminho. Mas, ah! Que droga! De novo não conseguiu! Lembrou-se da selfie! Queria uma foto da nova dona do colar! E mais uma vez, voltou.

Dessa vez, ficou lado a lado com aquela mulher, que de novo demorou um pouco para reconhecer sua presença, pois de novo estava distraída no meio da multidão tentando encaixar sua imagem na fresta de um espelho para admirar seu novo colar.

– Vai, deixa eu tirar uma foto sua.

Tomada de surpresa, ela gritou com aquela alegria toda peculiar dos marginalizados:

– Gentemmmm! Para tudo! Ela vai tirar uma foto minhaaa!

E durante aqueles segundos entre arrumar o cabelo e achar a pose perfeita, aquelas duas mulheres, que se encontraram tão por acaso e que agora estavam ligadas pelo colar de tecido do poder, pararam tudo mesmo.

Foram personagens de uma das muitas histórias que aquela mesma rodoviária guardaria no seu arquivo diário, mas, a grande sacada, é que juntas escreveram uma história feliz… e a “selfie” foi responsável não só por perpetuar a história em uma rede social e torná-la pública, mas também por comprovar que, sem dúvida, o colar encontrou sua dona, pois ficou bem mais elegante nela, e rende curtidas até hoje.

2 Comments
  • Lela Albuquerque
    junho 3, 2015

    Muito feliz em estar aqui também! =)

    Esse conto foi originalmente publicado em meu blog pessoal – “Conta outra pra Lela”

    Acessem! Está cheio de contos e sentimentos reais, que tenho certeza que irão tocar seus corações!

    http://contaoutrapralela.blogspot.com.br/2014/11/o-colar-de-tecido.html

  • Pensar Alheio
    setembro 7, 2015

    Ai que tudo! o/
    Em pensar que tudo é para todos, até para aqueles que não tem um meio acessível, mas que através de nós podem ganhar algo e uma experiência nova e marcante!
    Amei o conto, diria que a vaidade também é sensível e que ela pode sim ajudar ao próximo! :)

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