Céu de Diamante

 

Não havia estrelas no céu àquela noite. Não gostava disso.

Seu pai dizia que as estrelas brilhavam como diamantes. E então cantava para ela dormir a música da sua banda favorita, que falava sobre uma menina voando em um céu de diamantes. Ela costumava ir para lá quando tudo ficava difícil.

Hoje era um daqueles dias.

Encolhida perto da porta, a menina ouvia os gritos na sala. Seus pais brigavam. Ela não entendia o motivo, não entendia porque as pessoas brigavam. Eles eram felizes, por que não poderiam ser felizes todo o tempo?

Fechou os olhos e tapou os ouvidos com força. Ela também chorava, ela também gritava e não queria ouvir os próprios gritos. Imaginou um grande campo florido, apenas com o barulho de passarinhos, o sol alto e amarelo, iluminando tudo ao seu redor. Em sua imaginação, o sol sorria feliz, como nos desenhos que fazia, todos colados na geladeira.

Bem que seus pais poderiam olhar para a geladeira e sorrirem como aquele sol.

Porém, quando a menina abriu os olhos, continuou a ouvir gritos. O quarto ainda estava escuro. Por um instante, pensou ter visto dois olhos vermelhos na escuridão. Piscou e os olhos não estavam mais lá. Mas ela não estava sozinha.

Havia outra menina, loira, muito diferente dela. Só que os cabelos dela não eram apenas loiros, eram também rosa… depois verdes… azuis… amarelos cor de gema de ovo… Eles mudavam de cor, como se logo se cansassem de sempre serem os mesmos.

A menina ficou de pé, parando de chorar. Tentou falar, mas não conseguiu. A outra menina nada dizia, apenas sorria de lábios fechados. E então lhe estendeu sua mão.

As mãos dela não eram iguais às suas: eram pequenas, porém enrugadas, escurecidas. Pareciam as mãos de uma velha. A menina olhou para o rosto da Outra, tentando se certificar de que ela era mesmo uma criança. Seus olhos brilhavam na escuridão do quarto e ela ainda sorria, sem nada dizer. A mão permanecia estendida em um convite silencioso.

Por apenas um instante, hesitou. Mas os gritos de seus pais renovaram suas forças. Cada grito parecia rasgar seu coração já dolorido. Não queria continuar ali. Então se encheu de coragem, estendeu a mão e apertou a da Outra, que era muito, muito quente.

Aconteceu em um piscar de olhos; quando os abriu, já estava naquele jardim. Só que além de flores coloridas e de um sol com um sorriso feliz, o jardim também tinha doces… doces enormes, do tamanho da menina, ou ainda maiores que ela, tão grandes que se podia entrar neles, passear dentro de um bolo de chocolate ou mergulhar em uma torta de morangos e tantas, tantas outras coisas deliciosas.

Havia outros animais além dos passarinhos: coelhos, gatos, cachorros, e todos eles também eram coloridos, e a menina até teve coragem de encostar o dedo em um sapo, encorajada pelo olhar caloroso da Outra, para então descobrir que ele tinha gosto de chocolate e manchou sua mãozinha de glacê verde vibrante.

Havia outras crianças, e a menina percebeu que todas elas tinham os mesmos cabelos que insistiam em trocar de cor, assim como a Outra. Ela se virou e dessa vez conseguiu falar:

– Que lugar é esse?

A Outra sorriu e balançou a cabeça; seus olhos brilhavam como os anéis que a mãe da menina usava quando se arrumava. Mas quando a Outra Menina de Olhos de Anéis respondeu, não dava para ouvir sua voz, era mais como se ela fosse uma música que tocasse em sua cabeça.

“Aqui é para onde eu trago as crianças que não querem mais chorar.”

Ela olhou ao redor e viu as luzes do sol piscarem coloridas no céu. Viu as crianças brincando no meio das flores e dos doces e teve muita vontade de se juntar a elas. “Não precisa mais chorar”, a Outra disse. Ali não haveria gritos, apenas música.

E na sua cabeça tocava aquela música. A que o pai cantava. A música da menina voando no céu.

A menina deu um passo para frente, quis correr, mas foi impedida. Então viu a Outra Menina de Olhos de Anéis à sua frente, só que seus olhos estavam como pedras pretas e seu cabelo tinha ficado muito escuro.

Ela recuou um passo, assustada, sentindo o coração bater muito depressa.

“Você não pode ir… antes de me pagar um preço.”, a Outra disse, e sua voz não parecia mais música.

– E o que eu tenho que pagar? Eu não tenho dinheiro! – ela quis chorar, estava ansiosa para correr para os jardins e mergulhar em um pavê de brigadeiro. Será que teria que ir embora?

A Outra não respondeu nem com palavras na cabeça, apenas apontou para o coração da menina. Era aquilo que ela queria.

Só que ela não entendeu. Como poderia dar seu coração?

Ela nem precisou perguntar. Ouviu a voz da Outra em sua cabeça.

“Você me dá seu coração e fica aqui para sempre. Não vai precisar chorar, porque não vai ter ninguém mais para se importar. Ninguém que lhe machuque.”

Então o cabelo dela mudou de cor novamente. Ficou azul, e ela sorria com o calor do sol mais uma vez quando mostrou tudo o que a menina estaria perdendo se não aceitasse a proposta. Montes de caramelos, estradas de bombons, rios de refrigerante, flores de açúcar.

“Eu quero seu coração.”, a Outra repetiu. E apesar de ter os cabelos coloridos novamente, sua voz não conseguia mais ser música. A única música que tocava na cabeça da menina era aquela que seu pai lhe cantava toda noite.

Percebeu, com o coração apertado, que sentia saudade. E que não queria deixar de se importar com sua mãe e seu pai.

Não queria deixar de ter um coração.

Ela se lembrou da primeira vez que brigou com sua melhor amiga na escola e que nunca mais queria falar com ela. Só que sua mãe disse que isso não era verdade, que ela sentia falta da amiga, e que não era amizade se não tivesse briga de vez em quando, se não chorasse de vez em quando.

Sua mãe também disse que mesmo quando ela brigava por alguma coisa errada que a menina fizesse, e mesmo que brigasse com seu pai às vezes, nunca deixaria de amá-los. Ela fazia isso porque se importava.

Porque se importava…

A menina não queria deixar de se importar com as pessoas. Mesmo que doesse, mesmo que chorasse.

Então ela nem precisou responder. Apenas mexeu a cabeça de um lado para o outro e viu os olhos da Outra virarem pedras vermelhas, que pareciam pegar fogo. O mesmo vermelho que ela viu no escuro de seu quarto. A menina recuou mais alguns passos, e por um instante maluco, achou que suas pernas tinham virado gelatina, que aquele fosse um feitiço maligno da Outra, mas não, era apenas o enorme medo que sentia. Resolveu assumi-lo de uma vez por todas e começou a correr.

Sentiu todo seu corpo queimar, como naqueles dias em que o sol era vermelho demais. Olhou para o céu e o sol realmente era vermelho, e ele não mais sorria: mostrava os dentes como um animal feroz e perigoso. Ela viu os doces derreterem ao seu redor, ficarem escuros, negros, enormes massas disformes, cor da escuridão… Ela gritou e correu, correu o máximo que suas pernas tão pequenas conseguiam, e sentiu um bafo quente em sua nuca, um grito horrível e as próprias mãos que sabia pertencerem à Outra arranhando sua pele…

Não, por favor, eu quero ir embora!

E correu ainda mais…

Até que sentiu um aperto e alguém a abraçando. E as lágrimas de sua mãe eram quentes. Muito mais quentes do que qualquer sol, ou qualquer Menina de Olhos de Pedra. Eram calorosos de verdade. Eram quentes de jeito bom, como só o amor sabia ser.

– Minha menina… – ela repetia sem parar, chorando e rindo. – Não precisa mais chamar a ambulância, ela está viva!

Então seu pai entrou no quarto e pegou-a nos braços, também chorando e sorrindo, fazendo-a voar como se estivesse em um céu de diamantes.

E ali, sentindo o calor de seus pais, a menina estava feliz. E agora entendia que não tinha problema chorar.

Mas enquanto rodopiava nos braços do pai ela viu aqueles olhos vermelhos brilharem no escuro. E sentiu, apenas sentiu no fundo do seu coração, como algo grande, pesado e escuro, que aqueles olhos sempre estariam por perto.

Para vigiá-la.

 

2 Comments
  • #Capitão
    julho 17, 2015

    Um texto intenso e imerso em referências, em especial a dos beatles! =P

    Adoro especialmente as descrições do “mundo de diamantes”. Muito bem executado.

    Parabéns, Karen, não só pelo belo texto, como por abrir a nova fase da Roda de Escritores.

  • Pensar Alheio
    setembro 7, 2015

    Estava eu caçando o que fazer na internet, nessa tarde quase noite de chuva e feriado. Veio na minha mente o nome “Roda de Escritores” joguei no Google, e tcharam, eis que abri esse texto e me maravilhei lendo-o e fazendo meu imaginário se sentir bem vivo! Amando esse espacinho, já me vejo viciada nessa Roda de Escritores!

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado